Já faz algum tempo. Meus filhos eram pequenos, ainda.
Minha filha, mais nova, muito extrovertida, estava sempre pronta para brincar, cantar e até dançar. Meu filho, cinco anos mais velho, mais introspectivo, embora admirasse a espontaneidade da irmã, dificilmente se deixava arrastar pelas brincadeiras exageradas, especialmente quando envolvia pessoas pouco conhecidas.
Fôramos ao médico em Presidente Prudente e deixamos nossos filhos em casa com uma “secretária do lar” recém contratada. Eram tempos em que era possível ter uma! 
Era uma jovem morena, esguia, sorriso fácil, simpática e espontânea. O trabalho diário da casa parecia não deixá-la cansada, estava sempre animada e falante. Sempre que possível, mostrava-se agradecida pela oportunidade de trabalho pois vinha de uma vida de escassez, morara em um sítio próximo. 
Era comum ouvi-la cantarolando normalmente músicas sertanejas, em um tempo em que esse gênero não era muito aceito. Na correria do dia a dia, não nos incomodávamos com sua mania de cantar enquanto trabalhava; até nos alegrava ouvi-la. E minha filha, embora muito criança, vivia em torno da Rose, esse era seu nome, conversando sobre músicas, cantores e programas de rádio.  E assim a vida seguia, sempre tínhamos como fundo musical a voz nem sempre suave de nossa cantora exclusiva.  
No dia em que fôramos ao médico demoramos mais do que imagináramos. Mesmo sem a facilidade do celular, ligamos avisando que nos atrasaríamos e solicitamos que permanecesse com nossos filhos até que retornássemos. O horário expandido exigiu de nossa querida Rose que lançasse mão de algumas estratégias especiais a fim de mantê-los entretidos.
Já escurecia quando entramos pelo portão, estacionando o carro na garagem. Ao descer, ouvimos um improvisado e estridente coral, composto por poucas vozes, percebia-se, mas eram vozes empolgadas, envolventes, impressionantes, esganiçadas. O entusiasmo era tanto que não perceberam o barulho do carro nem nossa chegada. Caminhamos pelo corredor externo até chegarmos à escada que dava acesso à parte alta do quintal, na área da piscina, e a cena que vimos foi hilária e inusitada. Rose, devidamente equipada com uma vassoura ao contrário, cujo cabo simulava um microfone, cantava a plenos pulmões, uma música sertaneja, que nós desconhecíamos. À sua frente, meus filhos, como plateia, balançando os braços e ao comando da “cantora” repetiam com ela o refrão que era “É o amooor. Que mexe com minha cabeça e me deixa assim...” Ela, de frente para a entrada, viu-nos e calou-se rapidamente e as crianças, de costas, continuaram a plenos pulmões e aos gritos incitaram a “cantora” a continuar. E ela não se fez de rogada: retomou a cantoria acompanhada pela pequena e especialíssima plateia. Rose só parou quando a música terminou e então, eu e meu marido a aplaudimos e fomos acompanhados pelo pequeno público, delirantemente; quando perceberam nossa presença, as crianças riram muito (nem deram pela nossa demora!) e só então a artista ficou constrangida e desculpou-se pelo “espetáculo”.
Por vários dias o show improvisado foi o assunto preferido: “Ela canta muitas músicas, mamãe!” “Eu gosto de cantar com ela”. “Foi divertido!” “Ela é meio maluca, mas é engraçada”. Resolvi tocar no assunto com Rose e soube então: era a dupla preferida dela “Zezé di Camargo e Luciano”. “A senhora não conhece eles? Não???? São lindos e cantam como dois anjos, quer dizer, cantam muito bem. Eu acho.” Jurou que sabia todas as músicas deles. No rádio, ela os ouvia todos os dias. E cantava junto! E se propôs a fazer uma longa demonstração das músicas mais bonitas de seus ídolos, para eu ouvir! E eram letras românticas, dor de cotovelo expressa, desamor e sofrimento pela separação. O inacreditável, para ela, era eu não conhecê-los! Enfim, desse dia em diante, todos nós aprendemos a cantar as músicas da dupla, não porque realmente gostássemos, mas por intensa repetição. Afinal, Rose, era sem sombra de dúvida a fã número 01 da dupla Zezé di Camargo e Luciano, antes mesmo de eles terem alcançado reconhecimento nacional.

“A senhora sabe, mamãe, que quando a Rose canta as músicas deles ela fica com muito calor?” Sim, filha, é a temperatura. Aqui em Venceslau, faz, realmente muito calor!
“Fico com a pureza das respostas das crianças (...) Somos nós que fazemos a vida / Como der, ou puder, ou quiser” (Gonzaguinha)
(*) Aldora Maia Veríssimo – AVL – Cadeira nº 04
 


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