“Viver é aprender sempre.” Não sei quem disse essa frase, mas ela é verdadeira. Chegar à maturidade é um privilégio. Se pensarmos na expectativa de vida da maioria dos brasileiros, passar dos 60 anos é um feito memorável, cada vez mais natural, atualmente. E é essa longevidade que nos possibilita aprender, evoluir e decepcionar-se ao mesmo tempo. Pessoas a quem você sempre admirou e por quem sempre foi admirada, de repente descarregam sobre você suas frustrações mais profundas e de uma maneira tal que te deixam sem palavras e sem possibilidade de diálogo, visto que os argumentos, as convicções e o vocabulário de ambos os lados não pertencem ao mesmo patamar.
Estou cansada de fanatismo, de exageros, de auto estima desenfreada, de comentários desairosos sem nenhuma base de sustentação. Cansada de pessoas que dizem inverdades e acreditam e fazem acreditar nessas inverdades mesmo que a cronologia e a questão espacial comprovem o contrário. 
Estou cansada de hipocrisia, de “preguiça mental e profissional” travestida de conceitos humanitários. De olhares cujo brilho trai as palavras, a sonoridade das palavras e cujas entrelinhas “vomitam” características desabonadoras, mal disfarçando uma crueldade insana.
Estou farta de sorrisos amplos que são substituídos imediatamente por uma expressão séria ou de enfado, apenas a cabeça seja impelida por um pequeno giro de pescoço. Estou cansada de falso moralismo e de comentários controversos que denunciam o desconhecimento de fatos e atitudes. Aprendi que a crítica crua e cruel, normalmente, é fruto da ignorância, desconhecimento ou incapacidade de quem a emite.  
“Tenho preguiça” de ouvir falsos liberalismos que desconsideram que o fato alardeado poderá acontecer em sua família e então a coisa mudará de figura. Cansaço de pessoas excessivamente felizes em redes sociais que certamente não têm vida de verdade porque as postagens ininterruptas não lhes deixam tempo para viver. Farta de situações graves que são amenizadas porque as pessoas envolvidas têm sobrenome e status. Do famoso “jeitinho brasileiro” onde se entende normal “levar vantagem em tudo” mesmo com prejuízo de outrem.
A permissividade (tudo pode), a promiscuidade (todos juntos), o excesso de tolerância (está tudo certo), o desrespeito ao próximo (é um direito meu) a tabulação rasa ou nivelamento por baixo das potencialidades de pessoinhas em processo de ensino/aprendizagem, o que lhes compromete o presente e o futuro; o sorriso forçado e desbotado para não perder ou enganar um cliente, o atendimento sem alma e sem cuidados mínimos de muitos responsáveis pela saúde da população e as mortes daí advindas. Tudo muito brutal.
Cansada de me angustiar porque não sei o que vai acontecer com os destinos do Brasil, porque não importa quem sejam nossos governantes, nossa máquina pública já está por demais comprometida e viciada em roubos, propinas e demandas imorais. As engrenagens estão sempre prontas para triturar inovadores ou pessoas que primam pela honestidade. Cansada de ver leis não serem cumpridas, de pagar impostos altíssimos por produtos que estão adoecendo toda a população, todos os dias. De não haver fiscalizadores de incríveis programas voltados à população carente, e que são desvirtuados por seus próprios criadores, por quem deveria fiscalizá-los e, principalmente, pelos próprios beneficiários. Objetivando lucros para poucos.
Estou cansada da irresponsabilidade de pais e mães que geram filhos sem pensar minimamente se poderão criá-los com um mínimo de dignidade. Cansada de ver jovens tão antenados e bem informados engravidarem como se desconhecessem a mais natural das leis que é a da procriação.  Estou cansada de ver e ouvir lideranças, sejam elas quais forem, bradarem meias verdades e enganarem a ingenuidade popular. Cansada de ver pessoas que se deixam enganar porque lhes é conveniente.
Cansada de perceber que o Brasil tem uma defasagem cultural e histórica tão grande que carece de um esforço hercúleo e conjunto para avançar e evoluir, para então se tornar o “país do futuro” que tanto ouvimos falar desde a mais tenra infância.
Estou cansada de tentar esquecer que há crianças que passam fome, que são violentadas, que trabalham quando deveriam estar em uma escola, que são vítimas de bala perdida, que são aliciadas pelo tráfico e pela prostituição.
Estou cansada de acordar pela manhã e ao abrir a janela, encher meus pulmões com o ar fresco e num esforço inaudito e repetitivo tentar olhar a vida com otimismo, esforçando-me por entender que estamos num processo natural de evolução, que somos um país jovem, que ainda “temos jeito”  e tentar acreditar que as novas gerações poderão viver em um país melhor, com pessoas melhores, mais cultas, menos intolerantes, mais amorosas, mais respeitadoras e mais respeitadas. 
“Teoria não é solução para os problemas do Brasil. O que se precisa fazer é arregaçar as mangas, melhorar a administração das verbas e aplicá-las diretamente onde a questão é mais urgente.” (Antônio Ermírio de Moraes)

(*) Aldora Maia Veríssimo – AVL – Cadeira nº 04


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