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Trituração de pintinhos: investigação expõe prática na indústria

ResumoA investigação da Mercy For Animals documentou a trituração de cerca de 35 mil pintinhos machos em um único dia em incubatório da Região Sul do Brasil. A prática, comum na indústria de ovos, ocorre por inviabilidade econômica dos machos. A sexagem in ovo surge como alternativa tecnológica já disponível no país para evitar o descarte.

Investigação da Mercy For Animals documenta a trituração de cerca de 35 mil pintinhos machos em um dia em incubatório da Região Sul. A prática, comum na indústria de ovos, tem alternativas como a sexagem in ovo, que já chega ao Brasil.

Antônio Vilar
Antônio Vilar Repórter de economia local · 09 de setembro de 2026 · 4 min de leitura
Trituração de pintinhos: investigação expõe prática na indústria

Investigação da Mercy For Animals (MFA) documentou a trituração de pintinhos machos recém-nascidos em um incubatório de grande porte da indústria de ovos na Região Sul do país. Aproximadamente 35 mil animais foram mortos em um único dia na unidade investigada, cujo nome foi mantido em sigilo. Os pintinhos, com menos de 24 horas de vida, eram colocados em máquinas com lâminas rotativas de alta velocidade.

A prática ocorre porque os machos não põem ovos e, segundo a investigação, não apresentam características genéticas adequadas para a produção de carne. Separados das fêmeas logo após o nascimento, eles são destinados ao descarte. A vice-presidente de Investigações da MFA, Luiza Schneider, esclareceu que o objetivo não era investigar uma denúncia específica, mas documentar uma prática representativa de quase toda a indústria.

"Os pintinhos recém-nascidos têm plena capacidade de senciência, o que significa capacidade de sentir medo ou dor física. Eles têm o sistema nervoso completamente formado", disse Luiza. O material da investigação aponta ainda que os maceradores mecânicos nem sempre provocam a morte imediatamente, o que pode prolongar o sofrimento.

A investigação também registrou o descarte de fêmeas em menor número, quando apresentavam anomalias, deformidades, sangramentos ou nascimento prematuro, ou quando excediam a demanda dos criadores.

Sexagem in ovo: a tecnologia que evita o descarte

Uma das alternativas apresentadas pela organização é a sexagem in ovo, tecnologia que identifica o sexo do embrião durante a incubação. Os ovos com embriões machos podem ser retirados antes da eclosão, evitando que os pintinhos nasçam e sejam descartados. A tecnologia já é utilizada em outros países.

Segundo a organização Innovate Animal Ag, na União Europeia cerca de 130 milhões de um total aproximado de 340 milhões de poedeiras eram provenientes do método em junho deste ano. Alemanha, França, Áustria e Itália adotaram legislações que proíbem a trituração, enquanto Noruega e Suíça avançam para eliminação da prática por decisão de mercado.

No Brasil, a primeira máquina de sexagem in ovo foi instalada em julho de 2025 no incubatório da Hy-Line do Brasil, em Nova Granada, no interior de São Paulo. A iniciativa teve como cliente-âncora a Raiar Orgânicos, que possui cerca de 400 mil aves e se comprometeu a converter todo o plantel. Os primeiros ovos produzidos com a tecnologia chegaram ao mercado em dezembro daquele ano.

A adoção da tecnologia, entretanto, ainda é pequena. De acordo com o panorama da Innovate Animal Ag, a máquina instalada no Brasil opera abaixo da capacidade. O principal obstáculo é financeiro: o método convencional custa cerca de R$ 7 por ave no Brasil, enquanto o adicional da tecnologia fica entre R$ 5 e R$ 10 por ave, um acréscimo de aproximadamente 80% a 150%.

O custo, porém, pode ser diluído ao longo da produção. Segundo o estudo, uma poedeira produz cerca de 350 ovos durante o ciclo, fazendo com que o valor adicional por ave corresponda a poucos centavos de real por dúzia para o consumidor.

Vanessa Garbini, vice-presidente de Relações Institucionais e Governamentais da MFA, avalia que o fato de outros países estarem adotando novas formas de produção é prova de que os custos finais não inviabilizam os ganhos da indústria.

O que muda para o consumidor

Há sinais de interesse do setor industrial. Organizações de defesa dos animais citam compromissos públicos de empresas como Planalto Ovos, Grupo Mantiqueira e Korin de suspender a trituração, condicionados à existência de uma tecnologia economicamente acessível e operacionalmente viável. Em agosto, um encontro nacional sobre sexagem in ovo reuniu representantes de empresas de tecnologia, produtores de ovos, instituições financeiras e órgãos públicos, entre eles o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

No Brasil, ainda não existe uma norma federal específica que proíba ou restrinja o descarte de pintinhos machos. O tema chegou ao Congresso Nacional por meio dos Projetos de Lei 783/2024 e 3034/2026. O PL 783/2024, de autoria da deputada Luciene Cavalcante (PSOL-SP), já passou pela Comissão de Meio Ambiente e pela Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados, mas recebeu parecer contrário na Comissão de Agricultura por questões econômicas e deverá seguir para o plenário. O PL 3034/2026, apresentado pela deputada Heloísa Helena (Rede-RJ) em junho, ainda está no início da tramitação.

A Constituição Federal proíbe práticas que submetam animais à crueldade, sem distinção entre espécies. A MFA informou que pretende encaminhar uma denúncia ao Ministério Público para que os órgãos responsáveis avaliem as práticas registradas.

Pesquisas mostram que o consumidor está atento. Levantamento da Innovate Animal Ag com 1.553 compradores de ovos no Brasil revelou que 73% se sentem desconfortáveis com o abate de pintinhos machos e 76% concordam que a indústria deveria encontrar uma alternativa. O mesmo estudo apontou que 79% demonstraram interesse em comprar ovos produzidos com sexagem in ovo, e 76% disseram estar dispostos a pagar mais, com uma disposição média de R$ 3,87 por dúzia.

Para Luiza Schneider, a falta de informação ajuda a explicar por que a questão ainda provoca pouca pressão social. "Há um desconhecimento da população em relação a algumas práticas dessa indústria. Então, há pouca mobilização para que elas não aconteçam", disse. Vanessa Garbini completa: "Depois que você sabe o que acontece, não consegue esquecer. É praticamente impossível uma pessoa não se impressionar com essa atividade."

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