QUE HISTÓRIA É ESSA? Eu e o meu Bicho
QUE HISTÓRIA É ESSA?  Eu e o meu Bicho

Às vezes, parece que tem um bichinho que começa a comer a gente devagar. Primeiro é só uma coceirinha rápida que vem e passa. Depois começa a atrapalhar o seu sono. Te corroer por dentro.
Aí você se senta, com uma lata de cerveja na mão, chama o tal bicho para uma conversa franca e diz: “Vamos lá. O que é que tá pegando”?  E ele ri da sua cara num tom de “se vira”. “Eu tô aqui numa boa, os incomodados que mudem”.
E você segue sua vida carregando aquele bicho que te amola o dia inteiro. Você tenta gritar mais alto que ele. Rir, fazer piadas, sair, dançar. E quando a dança acaba você fala: Tá aí, ele se foi.
Mas é só girar a chave na porta que ele tá sentado no sofá, te esperando no escuro, em forma de sufoco no peito, de vontade de chorar.
E você escancara a janela para expulsá-lo, dizendo: “Cara, eu tô bem, eu tenho um emprego que eu gosto, tenho amigos, tenho uma família que me apoia. Porra, eu tenho o Mandela me esperando de rabo abanando toda vez que eu chego em casa”.
Mas quem vai se sentindo cada vez mais em casa é o bicho, que te faz rolar na cama sem dormir, que te pesa a perna e te impede de ir à aula de dança. Que te faz chorar de raiva por não saber de onde vem aquele choro. O apartamento encolhe, você se encolhe, a fome passa e o bicho toma conta de tudo. O bicho é você desnorteada na rua quase se deixando atropelar, é começar a tomar bode do trabalho e a fugir de gente. Qual é o veneno pra matar esse bicho?  Não é a cachaça. Nem a combinação de comprimidos que você calculou tomar, mas não teve coragem. O que mata o bicho é sentar-se de novo com ele e ter outra conversa franca. “O que você quer de mim? ”. E a resposta dele será: “O que você quer de você? Deixando todos os sonhos para um dia, quem sabe. Sentindo-se incapaz de se amar, percorrendo sempre os mesmos caminhos e ainda esperando por mudanças? ”. O bicho dá medo, ele pode até te matar, mas ele às vezes quer mesmo é que que você aperte o pause da vida e pense sinceramente sobre quem você é e o que você quer.
Pode ser num desespero, pedindo aos chefes para arrumar as malas no mesmo dia, percorrer 615 km e ir pedir colo para os seus pais. Numa arrumação de malas louca, com o computador e três ou quatro peças de roupas, bem no início da Pandemia. Pode ser sim.
Porque aí, devagar, você vai amansando o bicho (sim, ele foi na poltrona ao lado com você, no ônibus da Andorinha). Você vai sentindo o conforto de casa e o sabor de infância. Revivendo momentos engraçados, tristes e felizes com seus pais. Conversando com eles todos os dias, ao invés de só no Natal ou por telefone. Trabalhando a distância como todo mundo, num confinamento que, para você, acabou sendo um livramento.
Mas também deixando para trás a irmã, companheira inseparável da vida toda e alguns bons amigos, com quem você vai falar por Skype, whats, meeting, zoom, telefone e até cartas, se quiser. Ou pagar uma passagem de Andorinha e dar o abraço verdadeiro quando o mundo voltar a ser possível
O que você precisava era de paz. Era dessa pausa. Para tomar um pouco o espaço do bicho e ir retomando sua vida. 
De repente, o mundo para e dentro de você é pura turbulência, mudança, perspectiva. No meio de uma incerteza que toda conta do planeta, você respira e relaxa porque sabe que o mundo nunca seguiu um plano certo, uma rota exata. E se o mundo que é o mundo pode quase ruir de um dia para o outro, por que você não? Então, vamos juntos em busca da cura, da vacina, da ajuda mútua. Vamos fazer um check-in para ver o que foi que deixamos passar.
Para respirar sem dificuldade, talvez você só precise mesmo mudar os ares, o endereço, a cidade.
Escolher aquela casa pertinho dos seus pais onde, apesar de ainda não ser possível nos abraçarmos, possamos nos ver sempre que der vontade. Retomar a possibilidade de visitar a avó de 97 anos e o seu irmão em cidades mais próximas.
Onde se possa dar quintal ao cachorro, caminhar a pé pela cidade sem medo, manter o empego e os amigos de São Paulo que você ama, afinal, a tecnologia está aqui para isso.
Colocar cadeiras na varanda: uma para mim e outra para a companhia que vier (mesmo que seja o bicho, pois sei que às vezes ainda teremos que conversar). 
A rede no quintal, o canto dos pássaros, uma estranha ideia de que você está viajando para o passado ao invés de construir um futuro. Em duas ou três semanas, colocar em prática sonhos adiados por muito tempo. Por hora, só falta um, que vai chegar em um dia inesperado, não sei se no colo, engatinhando ou correndo pela casa para que eu possa embalá-lo na rede, enquanto adormece em meu colo. Mas esta é uma outra história.
*Andréa Martins é publicitária, roteirista, filha da professora Dora e do Dr. Geraldo e tem um pinscher chamado Mandela.
 

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