QUE HISTÓRIA É ESSA? Coração elástico
QUE HISTÓRIA É ESSA?  Coração elástico

O coração é um órgão do sistema cardiovascular, uma câmara oca com quatro cavidades: dois átrios e dois ventrículos. Possui o formato de um cone invertido com o ápice voltado para baixo e apresenta o volume aproximado de uma mão fechada. Normalmente pesa cerca de 300 g.
Curiosamente, é a ele que atribuímos todos os nossos sentimentos. Se a pessoa é boa é porque tem um grande coração ou um coração de ouro; se a pessoa é ruim, é porque não tem coração, ou porque tem um coração peludo.
Um coração pode ser partido ou quebrado em mil pedacinhos. Ou pode se alargar, esticar e fazer caber o mundo tudo.
Tem gente que acha que só o seu coração não basta. O coração do outro também tem que pertencer a ele. E é aí que começa o ciúme.
É possível uma mãe amar todos os filhos da mesma maneira? Se, em algum momento, ela precisa se dedicar mais a um do que a outro, significa que o lote do coração pertencente ao outro se encolheu?
Nunca fui mãe, mas nas últimas semanas adotei o Zé Maria, um vira-latinha de 2 meses banhado a labrador, com olhar de santo e atitudes de capiroto.
Acontece que há cinco anos eu já tinha adotado o Mandela, um vira-lata idoso, banhado a pinscher. Nas primeiras semanas, tive que me dedicar bastante à adaptação do novo morador da casa.
Em sua noite de estreia, Zé Maria berrou até o amanhecer como se estivesse sendo esfaqueado. Depois, arrancou e provavelmente engoliu uma coleira protetora contra mosquitos. 
A ideia é que o Zé seja criado do lado de fora, pois assim já estava acostumado e provavelmente se tornará um cão de grande porte. Já o Mandela deverá permanecer do lado de dentro da casa, uma vez que morava comigo em apartamento e já estava acostumado a dormir na minha cama.
Quando adotei o Zé, me deixei levar pelo coração, mas também pela razão: queria que o Mandela finalmente pudesse ter uma companhia canina e se acostumasse a ficar mais no quintal. Mas não foi bem assim que as coisas aconteceram. O Zé, com toda sua energia de bebê, tomou conta de tudo o que era do Mandela: seus brinquedos, sua caminha e exigia atenção constante. Tentei fazer a integração entre os dois, mas o bichinho chegou com uma fome de roer o mundo: roeu minha mão, meu cabelo, minhas chaves, meu chinelo e queria roer também o Mandela, inclusive suas partes íntimas. Sua maneira de brincar era pular no amiguinho e roê-lo até testar todos os seus limites de paciência. 
No terceiro dia de adoção do Zé, o Mandela acordou vomitando e eu sabia que era ciúme. Afinal, provavelmente achava que aquele enorme canil que era meu coração era só dele e, do nada, foi invadido por um forasteiro. Peguei leve nos outros dias, mantive os dois separados e comprei um brinquedo novo para o Mandela, uma vez que ele pegou tamanho ranço do Zé que não queria mais tocar em nada que o filhote tivesse encostado. 
Apesar desse coração elástico que faz caber tanta coisa em 300 gramas, existe sempre aquela insegurança de ficar na fila e o ticket de entrada acabar bem na sua vez.
Eu já citei a Rihanna, garota muito esperta de 8 anos que conheço e mimo desde que tinha 6 meses.
Quando me mudei para cá, ela ficou triste. Mas quando soube que eu tinha intenção de adotar uma criança ela ficou muito brava. Me mandou uma mensagem de voz perguntando se era verdade. Eu disse que provavelmente sim, mas que isso ainda levaria um tempo, e ela me perguntou:
- Então, eu não sou mais o seu amor?
Respondi a ela que no coração da gente cabem muitos amores e que o lugar dela sempre estaria garantido.
Nosso coração é capaz de continuar batendo mesmo depois de estarmos mortos. É capaz de sair de um corpo de alguém que já partiu para permitir que outra pessoa viva.
Médicos podem pegar um coração com as suas mãos. E mães são capazes de comportarem dentro de si 2 corações durante uma gestação.
É o coração da gente que acelera no medo, na fuga e na paixão. No sexo, na ansiedade e na pressão alta.
São só 300 gramas, menos que uma latinha de cerveja, e por ele declaramos guerras, versos, matamos, morremos, trocamos votos na igreja e insultos no cartório ou na sala do advogado.
O importante é que é ele que nos bombeia para essa vida tão louca e controversa, tão cheia de risos e lágrimas, de aventuras, mudanças, arrependimentos e aprendizados.
Que ele continue pulsando, cada vez mais elástico, para abrigar povos vindos de todos os lugares, peles de todas as cores, corpos de todos os tamanhos e pessoas de todas as crenças e religiões.
Para que, depois de mortos, possamos doá-lo limpo de preconceitos e repleto de histórias felizes e amorosas dentro daqueles 300 gramas, daquele punho fechado.
All we need is love (e um pouco de psicotrópicos também)
(*) No coração elástico da autora cabem seus leitores, seus amigos, o Mandela e o Zé Maria. E também sua família, a família dos outros e os problemas que não são seus.

Compartilhar Google+


Comentário(s)

1