QUE HISTÓRIA É ESSA? No jardim da minha casa tem uma flor amarela
QUE HISTÓRIA É ESSA?  No jardim da minha casa  tem uma flor amarela

Ontem comprei um regador azul para molhar as plantas do meu jardim. Sempre quis ter um regador! Deixo a água respingar sobre o pé de romã, a grama, a babosa, a citronela e uma grande folhagem no centro, além das flores amarelas. 
Faço isso como um ritual à tarde, observando a cachorrada que vira-lateia pela rua como bons cães de interior.
Agora, além do Mandela, eu tenho o Zé, uma mistura de filhote de vira-lata com o capiroto. 
Tenho um quintal para a rede verde, onde me deito para acalmar o cãozinho, que já está quase aprendendo a subir nela sozinho.
Dou bom dia, boa tarde e boa noite para desconhecidos e relembro como isso é bom. 
De manhã, quando saio para passear com o cachorro, passo na padaria, olho as pessoas praticando corrida e volto para minha casa, bem perto de onde estudei o pré-primário. O local tinha um grande espaço verde com um trator velho e meio enferrujado que era a sensação das crianças. Como eu amava aquele trator!
Também tem a quadra do Dagão, que recebeu este nome graças a um professor que dava aulas de natação e que morreu de leucemia quando eu ainda era pequena demais para saber o que é isso.
Eu detestava natação, morria de medo da piscina e a única coisa que me animava é que no final a gente ganhava chiclete. Na minha casa, esses doces eram artigos proibidíssimos. 
Um dia, uma amiga me ofereceu um chiclete e eu, clandestinamente, o aceitei. Quando meu pai parou o carro em frente à escola para me buscar, me apressei em esconder a mercadoria e a primeira coisa que passou pela minha cabecinha de 5 anos foi enfiar o chiclete mascado na bunda. O chiclete grudou na calcinha e no uniforme da escola. As evidências do crime estavam nítidas e me lembro de minha mãe colocando as peças em um congelador para tentar desgrudar aquilo da roupa. Em uma outra ocasião, o chiclete foi parar no meu cabelo, algo um pouco mais complicado de se resolver, a não ser com a tesoura.
E quem nunca quase morreu engasgado com uma bala soft? Comigo, aconteceu durante uma das apresentações do conservatório musical, onde minha irmã se apresentava fantasiada de Smurf. 
Eu odiava o conservatório. Passávamos tardes inteiras lá e minha professora, que estava eternamente grávida, tentava me ensinar a tocar “A marcha do Soldadinho de Chumbo”, com um metrônomo que tiquetaqueava sem parar.
Havia um único dia que gostávamos: o do coral e da bandinha. A professora da bandinha era legal e a do coral era a mesma que me dava aula de piano, só que lá, ao lado de uma porção de crianças, eu me sentia mais poderosa.
As músicas eram antiquadas, algumas do período militar. As becas para as apresentações eram horrorosas e às vezes ainda tinha coreografia com pompom. Um mico!
Aproveitávamos para nos divertir com uma música do repertório a respeito de um jumento. Peço licença para reproduzir a letra “O jumento orneja, quer comer capim. Se não comer logo, ele faz assim: ió, ió, ió, ió, ió”
Obviamente nessa parte final, a professora esperava que cantássemos apenas as duas sílabas, separadamente, mantendo a dignidade da canção. Mas eu, minha irmã e mais alguns coleguinhas fazíamos questão de ornejar com toda a força de nossos pulmões e gargantas, transformando aquilo em um exótico e barulhento coral de jumentos.
Livrei-me do conservatório na minha prova final, para qual não estava nem um pouco preparada. Quando me pediram para que tocasse um arpejo, levantei-me, dei as costas para o piano, olhei para a banca avaliadora e simplesmente fugi. Até nunca mais, conservatório!
Hoje, meu vizinho da frente é o Seu Vanalli, pai da minha ex-professora de português, Sônia, e avô de uma de nossas grandes amigas de infância: Graziela. Todos com muito talento para a música.
Seu Vanalli tem 94 anos e passa as tardes na varanda, escutando músicas lindas, que enchem de vida a minha casa. 
A vizinha ao lado é a Maria, que me deu o filhotinho de satanás e que também canta bonito, sempre ao cair da noite.
Quando o dia está quente, mudo minha estação de trabalho pra varanda, com um cachorro de cada lado, pra ver ninguém passar. Os dias correm leves e suaves.
A única coisa ruim de morar em uma casa são as baratas, que aparecem de vez em quando, já agonizando pelo veneno. Mas agora que soube que também há escorpiões aqui em Venceslau, isso passou a ser algo sem importância.
São Paulo me trouxe muitas coisas boas: minha formação, meu trabalho como redatora, roteirista e dramaturga, maravilhosas conversas de bares e amigos que espero, em breve, receber na minha casa, com o jardim coberto de folhas amarelas. 
(*) A autora abandonou o regador azul para regar as flores amarelas. É muito mais fácil fazer isso com a mangueira, convenhamos. O único problema é que o Zé já comeu uma delas
 



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