QUE HISTÓRIA É ESSA? Meu vizinho da frente - parte 5
QUE HISTÓRIA É ESSA?  Meu vizinho da frente - parte 5

A história de Presidente Venceslau esbarra nas colônias portuguesas, japonesas, alemãs e húngaras, entre outras. Seu Vanalli me diz que era mais fácil fazer amizade com os alemães, já que eram festeiros e também gostavam de cerveja e música. De repente, ele se lembra:
- Ah, tem uma outra história boa! É de um casal que veio da Alemanha e depois comprou um bar aqui. O alemão tinha uma mulher chamada Érica que era linda de morrer. E, sabe como é que ele chegou aqui? Essa história aí pouca gente sabe. Eu sei porque ele me mostrou até uma foto.
Havia aqueles trens, com 10, 15 vagões. Encheram aquilo lá de alemão, de búlgaro, de francês. Pra quê? Pra matar. Pra levar pros campos de concentração. E ele estava nesse trem fadado a morrer: ele, a mulher e as duas meninas, que tinham uns 2, 3 anos. E nesse interim, o trem deu uma balançada nos trilhos (ele imita: tchem tchem tchem tchem tchem). Em um desses balanços, a porta correu um pouco e se abriu. Na hora, ele pegou a mulher e as filhas e disse: “Ou vamos morrer saltando no chão ou vão nos matar no campo de concentração”. Vamos nos jogar. E saltaram. 
Então, parou num lugar para tomar um café, lá não sei onde, mostrou um papel com um número de telefone e conseguiu falar com um amigo. O amigo falou para ele ir pra Santos, que ele iria buscá-los. Ele tinha pouco dinheiro, só que ele tinha dólares, né? A família foi passando de país em país, até chegar na Espanha. Da Espanha, ficou mais fácil e eles vieram para Portugal, até que finalmente chegaram em Santos. Aí foi uma festa. A mulher e as crianças beijaram o chão sujo do porto. E o amigo voltou com eles para Venceslau. 
Logo aprenderam a falar português e ele formou uma banda, além de comprar o bar. A banda dele ensaiava na Aymoré e a gente ia lá assistir. Muitos já eram músicos por natureza. Os alemães participaram muito da vida social, esportiva e cultural da cidade.
Fizeram clubes e nós íamos lá ver as alemãs, que eram bonitas, né?
Ao falarmos em festa, seu neto Junior se lembra de que seu Vanalli foi homenageado pelo Rotary no início do ano.
Ele sai e volta todo orgulhoso com um quadro, dizendo que foi um momento muito emocionante.
Os filhos Raquel, Sônia e Tonico e os netos Junior e Graziela se reuniram para celebrar esse grande artista que, logo descubro, além de tocar gaita e cantar, também teve seu tempo de ator.
- Eu me metia a fazer qualquer coisa. Era só me chamar que eu ia. 
Só não pode visitar o filho Tonico, nos EUA, no ano passado, por conta de uma labirintite.
- Fiquei triste, queria conhecer meus bisnetos, mas, se essa Covid deixar, no final do ano ele vem pra cá e eu vou fazer uma baita de uma festa!
Covid, por favor, respeita o seu Vanalli e vai embora!
(*) Um dia desses, vi a cuidadora, Julia, preocupada, no meio da rua, porque seu Vanalli havia sumido. Alguns minutos depois, ele apareceu na esquina com uma sacola de compras, dizendo que tinha que manter a dispensa cheia. Vai que eu apareço lá de novo! 
 



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