QUE HISTÓRIA É ESSA? Memórias de um delito
QUE HISTÓRIA É ESSA? Memórias de um delito

Quando vejo o Porchat perguntando aos convidados de seu programa qual é a primeira lembrança que eles têm de suas vidas, faço um esforço enorme para tentar acessar as minhas.
Lembro-me de uma mochila do Pato Donald e do pão na chapa que eu levava na lancheira quando ainda estava no pré-primário. E também da Escola Armando de Oliveira Campos, que ficava onde hoje é a Secretaria de Educação de Venceslau. Da cantineira que, entre uma coçada e outra no pé, despejava o “Guaraná Taí” em um saquinho plástico com um canudinho. Eu não sei até hoje por que colocavam o refrigerante dentro de um saco plástico, provavelmente porque ainda não existiam os de lata e os adultos temiam que nos cortássemos com as garrafas. Só sei que a gente tinha que torcer para que o plástico não estivesse furado e segurá-lo firme até o fim para não derrubar o refri.
Meus primeiros anos de estudo não foram lá essas coisas. Apesar de insistir em redigir as palavras de trás para frente, não tive dificuldade em aprender a ler e escrever. Porém, a minha letra era sofrível, o que me fazia ter de passar horas preenchendo um caderno de caligrafia. Não adiantou.
Naquela época, a minha melhor amiga era a Thaís. Sentávamos lado a lado no ônibus escolar e passávamos o recreio juntas. Foi com ela que cometi meu primeiro delito infantil.
Nos anos 80, a caneta de 4 cores e o estojo com botões que acionavam minigavetas para todos os lados era o que existia de mais incrível. Eu tinha a caneta, o estojo e todo o material necessário para que meu caderno fosse tão caprichado quanto o da Thaís, mas nunca conseguia.
A letra dela era linda e cada página que escrevia parecia uma obra de arte. O conteúdo era separado por cores (as quatro cores da caneta Bic: verde, vermelho, azul ou preto) e, no topo de cada folha, ela ainda colava uma figurinha.
Já o meu caderno era um nojo: preenchido porcamente com meus garranchos e borrado pelas tentativas de apagar o que era escrito à caneta esfregando uma borracha lambida. Não, naquela época ainda não existia o corretivo.
Aquilo foi me enchendo de um tipo de sentimento inédito: a inveja. Um dia, enquanto todos saíam para o recreio, falei para Thaís ir na frente porque eu precisava terminar a lição. Mal ela deu as costas, roubei seu caderno, rasguei-o inteirinho e joguei o que sobrou pela janela da sala. Por fim, saí como se nada tivesse acontecido e fui fazer a “falsiane” ao lado da minha amiga.
Quando ela notou que seu caderno havia sumido, começaram as investigações. Thaís estava inconsolável e eu prometi que encontraria seu caderno. Obviamente, não precisei de muito tempo para isso. Entreguei os restos mortais para a professora, que iniciou um interrogatório com cada aluno.
Até hoje tenho certeza de que ela sabia que tinha sido eu, mas neguei até o final. Depois, o remorso foi se instalando e eu provei outro tipo muito ruim de sentimento: a culpa.
Jamais confessei o meu pequeno crime de destruição do patrimônio alheio: tinha medo de perder a amiga. Então, Thaís de Carvalho Silva e Silva, se você estiver lendo esta crônica agora, fica aqui o meu mais sincero pedido de desculpa. Com algumas décadas de atraso.
(*) Até hoje minha letra é horrível e meus cadernos são um nojo. Na terceira série fui para outra escola e nunca mais vi a minha amiga. Thaís, me liga!
 



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