QUE HISTÓRIA É ESSA? O defunto, o dinheiro e a cueca
QUE HISTÓRIA É ESSA? O defunto, o dinheiro e a cueca

Duas notícias me chamaram a atenção na semana passada. Uma delas, ganhou repercussão internacional: o caso grotesco do dinheiro depositado no cofrinho do Chico Rodrigues, vice-líder do governo que acabou com a corrupção no Brasil.
A outra, de uma desempregada que levou um defunto para fazer prova de vida e resgatar uma aposentadoria no banco.
No primeiro deles, o acusado fazia parte de um esquema que, por meio de emendas parlamentares, teria desviado até 20 milhões de dinheiro destinado ao combate à pandemia. Só na “poupança” de Chico foram encontrados 30 mil reais durante uma operação da Polícia Federal chamada magnificamente de DESVID-19.
Chico teve a cara de pau de gravar um vídeo, mesmo após o flagrante constrangedor, alegando que tinha a consciência tranquila, pois só estava fazendo o seu trabalho. Ele mentiu? Claro que não! Já faz anos que o ofício dos parlamentares brasileiros é roubar. Com a consciência mais limpa que o dinheiro que levava, o senador permanece livre, leve e solto.
Tanto Chico quanto a mulher que levou o defunto para passear no Banco do Brasil são estelionatários. A diferença é que um possui imunidade parlamentar e cumprirá pena em uma casa confortável, provavelmente construída com o dinheiro público, utilizando apenas uma tornozeleira eletrônica. Enquanto a mulher, que sequer conseguiu colocar as mãos no dinheiro do falecido, provavelmente será condenada e cumprirá pena na cadeia, em regime fechado.
As duas notícias me fizeram rir. Vivemos em um país tão surreal que às vezes é difícil acreditar nos acontecimentos. Mas, pensando friamente, qual delito seria mais grave?
Se o plano da senhora de Campinas tivesse dado certo – o que, convenhamos, era impossível – ela teria conseguido apenas roubar uma aposentadoria durante um ano. É honesto? Claro que não! É roubo? Claro que sim. Mas esse dinheiro seria utilizado para manter as necessidades básicas de uma pessoa desempregada em um momento de grave crise no país. Crise, aliás, agravada pela pandemia, para qual o dinheiro que Chico enfiou na cueca estava destinado.
O dinheiro da aposentadoria do falecido de 92 anos voltará para o governo e nós não temos motivo nenhum para acreditar que será utilizado para o pagamento das aposentadorias dos brasileiros. De repente rola mais uma emenda no meio do caminho e a grana desaparece em algum outro buraco.
A senhora que tentou roubar o defunto era acompanhante dele. Não se sabe se era amante ou apenas amiga ou cuidadora. Ela o levava todos os meses ao banco para sacar sua aposentadoria. Ao encontrar o corpo e se lembrar de que seria necessário fazer uma prova de vida, teve a ideia digna de uma comédia da sessão da tarde e achou que seria fácil um morto se passar por vivo. Chamou as duas vizinhas para acompanhá-la e, nervosa, quis apressar o atendimento no banco antes que a coisa começasse a feder para o lado dela. Para isso, alegou que o defunto estava passando mal. Diante da palidez do senhor, que estava devidamente acomodado em uma cadeira de rodas, acionaram o SAMU. Ao contrário do que ela queria, os bombeiros provaram que o finado estava mortinho da Silva. E há pelo menos 12 horas.
Essa senhora não conseguiu sequer colocar as mãos em 1 real. Mesmo assim, foi pega em flagrante tentando roubar o aposentado e será indiciada por estelionato e vilipêndio de cadáver. Se tivesse sido descoberta com 30 mil entre as nádegas, certamente seria presa na hora. Assim como eu e qualquer brasileiro que não tenha imunidade parlamentar ou grana sobrando para pagar um advogado com cara de pau o suficiente para defender um flagrante como este.
Portanto, aqui no meu fórum particular, absolvo a ingenuidade da senhora e condeno a falta de caráter do político que, inclusive, está entre os que mais aprovaram emendas para facilitar o desvio de dinheiro neste governo tão honesto que não precisa mais de lava-jato porque não tem o que investigar.
Como diria minha avó, caixão não tem gaveta e o dinheiro desviado do aposentado morto não faria diferença na nossa vida. Já o roubado pelo político, fez 150 mil brasileiros pagarem o rombo com a própria vida.
Que o defunto possa finalmente descansar em paz e nós possamos sobreviver à canalhice dos governantes que (eu não) escolhemos.



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