QUE HISTÓRIA É ESSA? Glu glu, salci fufu
QUE HISTÓRIA É ESSA?  Glu glu, salci fufu

Fui pega, ferrou. Eu confesso a vocês. Estou completamente sem inspiração. A falta de assunto colou em mim e não quer mais largar.
Falta assunto no Brasil? Como assim? Temos Bolsonaro, afinal!
Temos a novela da Coronavac. A presença de Anitta, que voltou para nossas paradas de sucesso em forma de vermífugo contra a Covid. O derretimento do Russomano nas pesquisas, o incêndio no hospital, o estupro cometido por Robinho, o decreto para privatizar o SUS, o Ricardo Salles chamando o Rodrigo Maia de Nhonho no twitter. E, a notícia mais importante de todas: Sérgio Mallandro que, durante internação na UTI, ficou 8 dias sem falar gluglu e Salci Fufu.
Não é possível que Sérgio Mallandro, Anitta, Robinho, Russomano, Nhonho e Bolsonaro não rendam assunto para uma crônica. Sim, eu estou enrolando vocês.
Beleza, vou falar sobre algo local que me incomodou muito esta semana: a foto de uma caçamba de lixo, aqui na nossa cidade, cheia de roupas e calçados em excelente estado.
Além da imagem que, por si só, já era chocante, o que mais me deixou inconformada foi o comentário de uma mulher (ah, os comentários na internet). Ela dizia o seguinte: ‘Sabe por que jogam no lixo? Porque você doa e a pessoa vende”.
Nos últimos anos, já vi gente defendendo atitudes que seriam indefensáveis. De assassinato de crianças à defesa do estupro. Da violência doméstica ao incêndio de reservas florestais. Da homofobia à tortura. Da ditadura à campanha antivacina. Porém, ainda não tinha visto alguém ser contra a doação.
Doar é abrir mão de algo, desapegar, ajudar o próximo. Ah, mas a pessoa vai ganhar dinheiro com o que eu descartei. E daí? Se não te serve mais, pouco importa o que será feito do objeto doado. Se a pessoa prefere vender a vestir, provavelmente é porque precisa mais do dinheiro que da roupa. Ou você acha mesmo que alguém que tem casa própria, comida farta na mesa, carrão na garagem e dinheiro para pagar os boletos vai pedir roupa usada para vender? 
Vivemos em um país cada vez mais miserável, com 80 milhões de brasileiros em situação de insegurança alimentar.
No início do ano, a ONU previu que a pobreza extrema deveria dobrar em 2020, alcançando 10% da população.
Com a crise mundial causada pelo Covid-19, aprofundamos ainda mais nossa desigualdade social, por isso, não temos o direito de descartar o que pode servir ao outro.
Enquanto, como sociedade, não pararmos de olhar só para o nosso próprio umbigo, não veremos um país digno para ninguém. Uma economia forte depende do consumo e o consumo depende de pessoas que não tenham que se preocupar apenas com a sobrevivência. Se você está mais próximo do topo da pirâmide, parabéns, mas saiba que, de um dia para o outro, o seu lugar quentinho e seguro pode desmoronar.
Precisamos de pessoas comendo, vestindo, estudando, votando, tendo acesso à saúde pública e capazes de pensar. Este ano, voltamos a ser incluídos no mapa da fome, do qual havíamos sido riscados desde 2014. É um retrocesso e tanto.
Diante de um panorama desses, ser contra a doação de qualquer bem ou desperdiçar qualquer coisa é de uma falta de humanidade exasperadora.
É mais preocupante que o Sérgio Mallandro ficar 8 dias sem fazer Glu Glu, mais chocante que ouvir macho defendendo o Robinho, mais decepcionante que o resultado do Anitta, mais vergonhoso que ser chamado de Nhonho no Twitter, mais triste do que o Bolsonaro e mais horrível que a cara toda botocada do Russomano.



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