QUE HISTÓRIA É ESSA? Boy de aplicativo
QUE HISTÓRIA É ESSA?  Boy de aplicativo

Se em algum momento da sua vida você desejar viver uma experiência antropológica interessante, eu sugiro os aplicativos de relacionamento.
Ok, conheço pessoas que se deram muito bem com eles, engataram namoros firmes e até casamentos. Nunca foi o meu caso.
Apesar disso, um dia desses me aventurei pelo app de namoro do Facebook. Apareceu tanto encosto que tô quase namorando um Pai de Santo.
Notei que os perfis variam pouco. Dentre os machos-alfa disponíveis estão:
O boy que só quer conversar: sério mesmo? Você baixou um aplicativo de namoro para conversar? É mais fácil encarar uma fila de banco, ligar para o CVV, mandar um Whats ou marcar alguma coisa com um amigo que você já sabe que é gente boa. Nos aplicativos, em vez de um amigo, você corre o risco de encontrar um Serial Killer.
O boy “mamãe, malhei”: esse é um tipo que só posta fotos sem camisa, expondo seus músculos e fazendo cara de mau em frente ao espelho. Bem, uma vez me atrevi a sair com um maluco marombeiro que fazia dieta intermitente e foi uma das experiências mais bizarras que tive. Enquanto tomava minha cerveja, ele devorava um pratão de estivador e fazia declarações de amor para a comida, ao mesmo tempo em que me dizia: “Não fique com ciúmes, amor, eu também te amo”. Eu não estava com ciúmes, estava morrendo de vergonha.
O boy multiuso: ele tem fotos (sem camisa, sempre) trocando lâmpadas, fazendo poses sensuais, passeando com o cachorro, com o filho no colo, cozinhando, enfim, sendo um homão da porra! Acho graça. Trocar as lâmpadas de casa eu também sei, e o mínimo que espero de um parceiro é que ele cuide do próprio filho e passeie com o cachorro. Passeio todos os dias com os meus e não saio postando fotos por aí para me gabar.
O boy assanhado: ele tira fotos com a mão nas partes íntimas ou, o que é pior, das próprias partes íntimas. Na boa, cara, tem muita Sex Shop por aí com um material de mais qualidade que o seu. E à prova de DST. Então, por favor, guarda esse negócio e só mostre quando for solicitado.
O boy cansado: esse tipo de boy já vai logo berrando no perfil que se não quiser nada com ele não é para dar like e, que se der like, é para conversar.  Ele tá cansado, não quer perder tempo, tem uma vida para viver. Jura, meu anjo? A gente ainda nem se conheceu e você já está querendo me dizer o que fazer? Uma vez, comecei a conversar com um sujeito, mas não quis sair com ele. O cara fez um escândalo dizendo que eu tinha criado falsas expectativas e que ele estava #chateado. Nós só tínhamos conversado por 2 dias! Imagina terminar um casamento com um bofe desses!
O boy que sabe do que você precisa: não sei se me dá pena ou ódio. Esse abençoado escreve um textão no perfil dizendo que “mulher precisa ser cuidada, protegida, ter seus “humores” compreendidos e blá, bla, blá...”. Véi, você nem me conhece, como sabe do que eu preciso? Além do mais, o último boy que falou que ia me proteger quase acabou com a minha vida. Então, tô de boas. Quem dá proteção é polícia e camisinha, e olhe lá. Me erra!
O boy de Jesus: eu tô um pouco assustada com a onda crente que tem tomado conta do Brasil. Quando digo crente, não estou me referindo a nenhuma religião específica, mas sim aos ungidos que não deixam Deus e Jesus em paz. Olha, nada contra, acho os dois gente fina pra caramba, já demos match e tudo. Por isso mesmo prefiro acioná-los apenas em caso de extrema necessidade. Pra que ficar colocando os dois no meio daquele Surubão de Noronha?
O boy exigente: ele já vai logo falando que “com ele é assim”: mulher tem que ser sarada, saber se comportar, ser séria, se dar o respeito, ser boa mãe...”. Esse, além de ser o combo machista gigante com fritas e coca-cola litro, normalmente é um coroa daqueles bem maltratados pela vida. Se liga, maluco. Procura um espelho e um calendário que a gente já tá quase em 2021.
E por último, mas não menos importante, o boy analfabeto. Ele diz que tem superior completo, mas escreve que é um cara “cimpático” e que tá “ancioso” por uma nova “enquelina” para o seu coração. Sou a favor da criação de uma lei Maria da Penha para punir quem espanca a língua portuguesa dessa maneira. Juro que não procuro nenhum Camões para me relacionar, mas também não sou capaz de “cimpatizar” com uma “peçoa” dessas. Meu coração merece um “enquelino” mais culto.
Definitivamente, não é fácil ser uma mulher moderna, independente e solteira em tempos de Tinder.
E eu juro que só queria um moço alfabetizado, companheiro, com todos os dentes, limpinho e honesto. Não precisa saber cozinhar nem trocar lâmpada. Preparo um miojão da hora e tenho ótimos contatos de quebra-galho (para serviços gerais domésticos, é claro!). Basta que, se tiver filhos, cuide deles. Se tiver ex-mulher, pague pensão. E, se tiver votado no Bolsonaro, peça perdão todos os dias.
 



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