QUE HISTÓRIA É ESSA? Vamos passear?
QUE HISTÓRIA É ESSA? Vamos passear?

É sempre com essa frase que nosso ritual diário começa. Primeiro, com o Mandela e, depois, com o Zé Maria.
Por questões de idade e disposição, a caminhada com o Mandela é mais leve, curta e vagarosa. O velho pinscher gosta de cheirar cada árvore ou poste demoradamente, curtindo o passeio como um senhorzinho que já não confia tanto nas próprias pernas.
Com o Zé Maria a história é outra. Com apenas nove meses de vida, o que não falta é energia e confiança nas próprias patas. Variamos entre caminhadas, pequenos trotes, arrancadas em alta velocidade e momentos em que ele se atira em cima de alguém ou de algum outro cachorro.
Apesar de exigir mais atenção, é com ele que faço o passeio mais longo. 
Nosso roteiro é sempre a pista de caminhada da Penitenciária 1, com uma paradinha na pracinha do Dagão. Zé Maria é popular: faz amizade fácil e conhece mais pessoas que eu. Não raro, ouço alguém o chamando e me pergunto: “Como é que essa pessoa sabe o nome dele?”. Crianças e adultos se rendem ao charme do vira-lata com pinta de labrador, especialmente a funcionária do posto Luizão, com quem ele já “agarrou” uma forte amizade. 
Enfim, é hora de respirar o ar fresco e admirar a mata preservada que guarda a nascente do córrego do veado. Momento de relaxar, fazer planos e ter ideias.
Não é à toa que a caminhada fez e faz parte do ritual de muitos escritores, como o filósofo dinamarquês Kierkegaard, que caminhava pelas ruas de Copenhague à procura de inspiração e voltava correndo para casa sempre que uma boa ideia lhe ocorria. A ânsia de colocar os pensamentos no papel era tanta que ele escrevia em pé, debruçado sobre a mesa, sem ao menos tirar o chapéu ou largar o guarda-chuva.
Já o autor japonês Haruki Murakami faz questão de caminhar sem rumo, todos os dias.
Nas calçadas e Ipanema-Leblon, quem dá o ar da graça é o cantor e compositor Chico Buarque, que há anos não abre mão de respirar a brisa do mar.
Stephen King, mestre do terror, fez jus às suas histórias mais assustadoras. Durante um de seus passeios, foi atropelado por uma caminhonete e ficou gravemente ferido, em 1999.
Quisera eu que minhas caminhadas me levassem a inspirações tão grandes quanto as desses e muitos outros escritores, embora dispense o atropelamento.
Caminhar acelera o coração, oxigena o cérebro, deixa os cachorros felizes e possibilita encontros improváveis. Eu, por exemplo, já dei de cara com cavalos, galinhas, tatus e até um macaco.
E soube que há poucos dias resgataram um jacaré da piscina do Venceslau Clube, que faz parte da minha rota. Se caminhar é bom, com emoção fica melhor ainda.
E aí? Vamos passear?



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