QUE HISTÓRIA É ESSA? Rodrigo
QUE HISTÓRIA É ESSA? Rodrigo

Eu nunca havia perdido um amigo antes e está sendo difícil aceitar. A partida em tempos de pandemia é ainda mais cruel, pois não dá espaço para uma despedida digna. Rodrigo morava em São Paulo e eu dificilmente conseguiria estar presente em seu funeral, mas ainda assim, a sensação de vazio e de tristeza por não poder prestar uma última homenagem é dolorida.
Acompanhar cada dia de luta por boletins enviados em um grupo de WhatsApp e receber a notícia de sua morte por mensagem de texto me trouxe uma sensação terrível de meu amigo merecia muito mais.
Rodrigo era uma pessoa divertida, de língua afiada. Às vezes, para não perder a piada, quase perdia o amigo, mas logo encontrava um jeito de se desculpar.
Fui sua “chefe” por alguns anos e o seu jeito polêmico fazia com que eu e o Edu (com quem eu compartilhava a gerência de criação) precisássemos nos virar em mil para impedir que ele fosse demitido pelos donos da agência.
De tanto implorarmos para ele pegar leve, ele acabou se convencendo e criou uma versão que gostávamos de chamar de “Rodriguinho Paz e Amor”.
Quando finalmente decidiu que não queria mais ficar no emprego e percebeu que estava para ser demitido, me pediu: “Déia, eles vão me demitir. Por favor, não tenta impedir”. 
As festas na casa dele eram as mais divertidas e aconteciam com tanta frequência que o síndico o chamava de afável e festeiro.
Muitas vezes chegava de ressaca no trabalho e vinha me perguntar se estava dando para perceber. Era óbvio que estava, mas eu dizia que não para tranquilizá-lo. 
Em um desses dias, estava tão mal que acabou cochilando no sofá da agência. Foi a oportunidade perfeita para que um amigo tirasse uma foto e fizesse dezenas de montagens com ele nas mais diversas situações: pisando na lua, no sofá da Hebe Camargo, entre as Paquitas, na cama com o Clodovil, sendo entrevistado pelo Jô e até no Titanic.
Fazia aniversário no mesmo dia que meu pai e eu costumava dizer que era por isso que eu tinha tanta paciência com ele. 
Mas a verdade é que por trás do jeito meio “ogro” era fácil ver a pessoa generosa, carinhosa e com imenso coração que era o meu amigo.
Quando ele e a esposa se separaram por um período, ele ficou tão abalado que veio me perguntar o que poderia fazer para aquela sensação ruim passar. Sugeri que ele fizesse algum exercício físico no fim do dia e ele se matriculou na aula de boxe, na mesma academia que eu frequentava. É lógico que não perdia a chance de me espiar nas aulas de zumba e depois fazer piadas com isso para o time de criação.
Quando reatou seu relacionamento com sua esposa Junia, veio todo feliz me contar a novidade. E fico mais aliviada em saber que ela esteve ao seu lado até o fim, se esforçando para manter s amigos por perto.
Era um dos poucos que preferia telefonar a mandar mensagens. Nossa última conversapelo WhatsApp foi tão aleatória que falamos a respeito de galinhas D´angola (!). E nós sequer nos despedimos.
Agora, tento pensar que um mundo onde não podemos mais nos reunir, abraçar e fazer festa não é mesmo digno do Rodrigo.
O que nos resta é seguir em frente e, como escreveu o psicanalista e escritor Contardo Calligares, que também nos deixou esta semana, “viver o que der e vier: comédias, tangos e também tragédias - quanto mais plenamente possível, sem covardias”.
Vá em paz, meu amigo. Sentiremos saudades.
Em memória de Rodrigo Bitar



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