QUE HISTÓRIA É ESSA? Capirotinho
QUE HISTÓRIA É ESSA? Capirotinho

Ele já chegou, chegando: invadindo a minha casa pela fresta do portão, pronto para roubar os brinquedos do Mandela (meu velho pinscher).
Não havia como contê-lo e, de tanto insistir, acabou me vencendo pelo cansaço. Afinal, em uma casa espaçosa e com quintal, quem cria um, cria dois.
Batizei-o com um nome que traduz a simplicidade do interior: José Maria. De início, achei que seria uma boa companhia para o Mandela, mas eles se odiaram de cara.
Já no primeiro dia de adoção, em junho de 2020, Zé Maria começou a mostrar seu “gênio difícil”. Durante o primeiro passeio em um Pet Shop, quis deixar sua marca, fazendo suas necessidades bem no meio da loja. 
A adaptação à casa nova não foi fácil: o pequeno vira-lata mostrou todo o poder de sua garganta, acordando a vizinhança, que registrou inúmeras queixas. Nem remédio para dormir derrubava aquele cão.
Tentei o adestramento, e até consegui ensiná-lo a sentar e deitar. O comando “ficar” jamais foi compreendido.
Ele cresceu e a quantidade de roupas sem furos do meu guarda-roupa diminuiu. A fase de troca de dentes dura até hoje, fazendo com que a besta canina roa tudo o que encontra pela frente: brinquedos, chinelos, pedras e até a parede. Mas, sem dúvida nenhuma, o que ele mais ama morder sou eu.
Os passeios são sempre momentos de forte adrenalina e é comum que, em um acesso de alegria e afetividade, ele voe nas pessoas, na tentativa afetuosa de um abraço. Seria a carência da Pandemia?
Diariamente sou arrastada durante toda a caminhada, que normalmente é interrompida pela visão de outros cachorros ou de animais um pouco mais exóticos, como tatus e macacos.
Ousadia é seu segundo nome. Esta semana, enquanto dávamos uma inofensiva voltinha no quarteirão, ele avistou um gato. Com a fúria de um búfalo, saiu correndo em direção ao felino, que desapareceu. Para não perder a viagem, o Zé decidiu fazer um xixizinho em uma pequena moita. Mal havia começado a tarefa quando o bichano, todo respingado de urina, saltou furioso em nossa direção. Foi miado de um lado, ganido e berro de outro, uma verdadeira cena de horror, violência e ódio. 
É apaixonado por água e já comeu umas três ou quatro mangueiras. Sempre que vou regar o jardim, no fim da tarde, deixo que ele me acompanhe. Então, ele se senta na cadeira da varanda e fecha os olhos de deleite enquanto eu o molho com o regador.
Recentemente Zé Maria completou um ano. De presente, ganhou uma caminha nova feita de ferro (já havia destruído duas de pano), aparentemente à prova de dentadas. Pena que ele não tenha entendido direito a função do presente e insista em usá-lo como uma cama elástica, onde ele salta alucinadamente, antes de disparar em uma corrida insana em volta da casa.
Ao comprar a cama, ganhei uma capa com direito ao nome do cachorro bordado. Pedi que colocassem logo seu nome e apelido: José Maria (Capirotinho).
Mas o presente extraviou e, enquanto Zé Maria tenta se acostumar com o nome de duas cachorras cariocas, alguém em Botafogo se questiona quem seria o cachorro merecedor de tal alcunha.
Em tempos de Pandemia, viciou em álcool gel. Não pode ver uma mão devidamente higienizada que já vai logo lamber.
E quando me vê chegando, não importa o horário, se dirige para o portão, bocejando para, em seguida, deitar com as patas para cima à espera do que ele mais ama: uma longa e caprichada coçada na barriga.
 



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