Compartilhando ... Amo cavalos

 

Algumas lembranças, mesmo que remotas, se mantêm vivas em nossa memória. Esta é uma lembrança indelével no meu coração.
Sempre gostei de cavalos. Vejo-os como animais muito bonitos, gostaria de ter condições e espaço para ter um. Penso nisso desde sempre.
Nos tempos de eu menina, meu pai tinha um cavalo, na verdade, uma égua chamada Mula. Estranha binariedade, mas é isso mesmo, uma égua chamada Mula. Tinha o pelo marrom claro, crinas longas e muito garbo. Lembro-me dela como um animal muito elegante e com o trote ímpar. A imagem que me vem à mente é de beleza singular, mas, sinceramente, não sei quanto dessa imagem é real e quanto é idealização. O fato é que a tenho na memória desde a mais tenra infância.
Na época da minha infância, em que morávamos em um sítio, Mula era usada como “burro de carga”: levava meu pai para lá e para cá, ou levava cargas da lavoura até em casa ou de casa até a lavoura. Dócil, inteligente, obediente, parecia entender as ordens de meu pai. Servia também de diversão para todos os meus irmãos e em dias de não trabalho, corria elegantemente pelas terras de meu pai carregando preciosa carga: as quatro filhas mais velhas.
O comando era sempre de minha irmã Elza, seguida pelas outras três irmãs, cada uma atarracada na cintura da anterior. Mula, embora dócil, só obedecia meu pai, mas minha irmã, muito habilidosa criou uma maneira de fazê-la parar quando exagerava na velocidade: gritava “Mula” e pendia o corpo para um dos lados; o animal acreditando que as meninas estariam caindo, estacava rapidamente. Todas saltavam rindo alegremente e Elza, orgulhosa, da obediência ao seu comando. 
Um certo dia, a manobra foi repetida por Elza e, inocentemente, as demais também penderam os franzinos corpos para o mesmo lado. O movimento mais acentuado fez com que a Mula estacasse de repente e... todas ao chão! Perninhas finas emaranhadas umas às outras e uma confusão de saias e saiotes amorteceu a queda, suavizada também pelo riso inocente e solto das quatro meninas.
Nesse tempo, muito pequena, eu não cavalgava, mas assistia encantada o retorno de meu pai da árdua tarefa diária na lavoura, montado garbosamente em sua Mula. O apego de meu pai por esse animal era tanto que quando nos mudamos para a cidade meu pai vendeu todos os animais, exceto a Mula. 
O lugar onde viemos morar não tinha espaço para o animal; meu pai então alugou um pasto para mantê-la e toda tarde alimentava-a e passeava montado por 30 ou 40 minutos. Nesse tempo, então, desfrutei muito desse prazer, montava-a sempre que acompanhava meu pai. Éramos, eu, meu pai e a Mula muito felizes. Vê-la atender às palmas de meu pai, aproximar-se para comer e menear a cabeça como expressando afeto a quem a tratava com tanto carinho, a fazia especial.
 Manter o aluguel do pasto e a alimentação da égua causava certo desfalque nos proventos familiares. Era comum surgirem pretendentes a comprar a Mula, mas a argumentação de meu pai afastava-os rapidamente; percebiam logo que não seria vendida por dinheiro nenhum. 
Um dia, surgiu um novo pretendente. Diante da negativa de meu pai, o interessado foi aumentando exponencialmente o valor a ser pago; embora tentado pela quantia exorbitante, meu pai continuou negando e o negócio não aconteceu. Três dias depois, meu pai chega ao pasto batendo as palmas costumeiras, Mula não se aproxima; chegando mais perto, eu e meu pai vimos o arame cortado e constatamos que o animal desaparecera. Caí em prantos e meu pai tentando me consolar, demonstrando força, deixava transparecer a voz embargada. Em silêncio fomos até nossa casa. Informada, minha mãe pôs-se a rezar “responsos” e conclamou as amigas a fazerem o mesmo para que encontrássemos nossa querida Mula. Meu pai acreditava que, se ficasse solta, ela voltaria. Isso não aconteceu. Meu pai passou noites e noites insone, tentando entender porque isso acontecera. A Mula jamais voltou. Esse foi um dos assuntos mais comentados nas rodas de conversa de meu pai; durante muito tempo, seu coração sangrou pela perda do querido animal.
    “O amor aos animais é a maneira mais evidente de provar que somos humanos.” (Anônimo)

(*) Aldora Maia Veríssimo – Presidente da AVL (2018 – 2019)   
 


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