Compartilhando ... O pesadelo da seca

“O Quinze”, escrito por Rachel de Queiroz, foi a obra discutida no Clube de Leitura da Academia Venceslauense de Letras, no último dia 24.
Rachel de Queiroz, a primeira mulher a fazer parte da Academia Brasileira de Letras, um nicho preferencialmente masculino, escreveu essa obra quando tinha apenas 20 anos de idade e tornou-se a primeira voz feminina da Literatura Brasileira.
A escritora nascera em 1910 e retratou nessa obra a seca enfrentada pelo Ceará em 1915, uma das piores da história. 
Havia vários meses que não chovia. O gado não tinha mais o que comer, as cacimbas e açudes haviam secado. Fazendeiros e fazendeiras, se deslocam para a capital, abrem as porteiras para a saída do gado, dispensam empregados que se tornam imigrantes.
O protagonismo da mulher, uma das características mais marcantes das obras de Rachel de Queiroz, também é destaque na obra em tela. Há várias personagens femininas, algumas são fazendeiras e respondem por enormes fazendas no sertão cearense. Mas, sem sombra de dúvida, a personagem mais importante é Conceição, neta de Dona Inácia, uma fazendeira resiliente.
Conceição é professora, dá aulas na capital e só nas férias desfruta da calma e da paz da fazenda, onde refaz o corpo e a alma das canseiras da escola. Culta, possui uma biblioteca considerável com livros sobre política, meio ambiente, filosofia e feminismo, os quais lê e relê incansavelmente.  
Não é o modelo de mulher do seu tempo; nunca desejou casar-se, embora tenha sentido os afagos do amor. Admira e flerta com Vicente, filho de uma família amiga, também fazendeiro, simpático e mulherengo como convinha aos homens da época, porém matuto, totalmente alheio aos intrincados pensamentos da filosofia.
Paralelamente às idas e vindas dos sentimentos entre Conceição e Vicente, Rachel mostra a trajetória de Chico Bento, Cordulina e seus três filhos. Tendo sido despedido por causa da seca, Chico Bento pôs-se no caminho com a família; mais uma família de retirantes palmilhando o sertão e juntando-se a centenas de outros, sob um sol escaldante, fugindo da fome e da falta de água.
A história da família de Chico Bento  é pontuada de desgraças: a escassez de alimentos, a falta de água, um filho desaparece, outro assoberbado pela fome, come mandioca brava e morre. O mais novo, sem alimentação e sem o leite da mãe, regride fisicamente: deixa de falar, apenas balbucia e não consegue mais andar.  
Chegando à cidade, Chico Bento tenta conseguir passagens do governo para saírem da região da seca e percebe que as passagens foram utilizadas com favorecidos das autoridades. Ficam um longo tempo em um abrigo social fétido, insalubre e superlotado recebendo alimentação escassa, até que a conselho de Conceição a quem doaram o filho menor para cuidar, embarcam para São Paulo, o destino de milhares de retirantes, porque “em São Paulo não há seca, a chuva é farta e há oportunidade de empregos para todos”, assim dizem.
Enquanto isso, Vicente luta para que seu gado sobreviva ao longo período de estiagem, passando noites acordado para “erguer o gado caído” e fazendo uso de sementes porque o pasto já acabara. Olha o céu, continuamente, tentando descobrir sinais de que a chuva se aproxima, e busca forças na fé  para continuar lutando até que a chuva aconteça. Intercala o trabalho cansativo com os carinhos de Mariinha, uma mulata bonita.
Conceição, na capital, na rotina das aulas, quando à noite lê à luz de um candeeiro, “estragando os olhos” conforme diz sua avó, pensa em Vicente e imagina-se casada, lendo e tentando compartilhar com ele um belo parágrafo; acredita que apreciará sozinha, já que não poderá contar com o entendimento do matuto. Com um aperto no coração, conclui que não nasceram um  para o outro, já que a diferença cultural tornaria muito difícil, talvez impossível, a comunicação entre eles.
Em “O Quinze”, seu primeiro livro, Rachel de Queiroz deixa claro a que veio: uma sensibilidade feminina, um olhar diferenciado sobre a tragédia da seca, capaz de permear o sofrimento com pinceladas de doçura, humanidade e solidariedade. Encanta e marca profundamente quem o lê. Vale a pena conhecer. 
“Recordando a labuta do dia, o que o dominava agora era uma infinita preguiça da vida, da eterna luta com o sol, com a fome, com a natureza”. (Vicente)
(*) Aldora Maia Veríssimo – Presidente da AVL (2018 – 2019)


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