Compartilhando ... A Pandemia

Já passei dos 60 anos. Costumo dizer que já vivi muito e por isso já vi e vivenciei muitas coisas e, portanto, não imaginava, nem nos meus piores pesadelos, que passaria por uma pandemia.
Passei do ceticismo e da incredulidade para a estupefação chegando ao medo e a uma tristeza profunda. Isolamento social significa estarmos bem de saúde e nos vermos envolvidos em um sentimento de solidão, precariedade do ir e vir, e o mais dolorido, diminuir o convívio com os entes queridos.
Sempre fui observadora mais que palpiteira e minha observação tem me proporcionado, da garagem de minha casa, uma calma desoladora do trânsito na minha rua; podem se contar os carros que passam um muito distanciado do outro, seguidos de um silêncio e uma inércia angustiantes. 
Não há vizinhas conversando nos portões, não há crianças brincando na rua, apesar de as aulas terem sido suspensas. As crianças têm que ser mantidas dentro de casa ou nos quintais sem compartilhar brincadeiras com amigos e companheiros. E sem conviver com os avós!
Como passar o tempo durante o isolamento social? Redes sociais e televisão. A televisão, numa ânsia por ibope, passa o dia todo repetindo incansavelmente as mesmas informações e o crescimento implacável do número de infectados pelo coronavirus no mundo todo, com ênfase ao Brasil. As redes sociais estão repletas de mensagens alarmantes, piadas de mau gosto, mas também textos de conteúdos apreciáveis. Lendo os textos e comentários firmei convicção de que até nas grandes tragédias é possível encontrar aspectos positivos.
Com a terrível situação da pandemia do coronavirus, o fechamento de lojas, clubes, escolas, o isolamento social tem nos obrigado a conviver mais, por paradoxal que possa parecer, com nossa família, nossos pares, nossos filhos e com essa convivência “forçada” nos olharmos mais, nos valorizarmos mais, prestarmos mais atenção uns aos outros. E oxalá possamos, enfim, conhecer melhor nossos entes mais próximos, valorizar mais as pessoas com quem convivemos.
Há quem diga que esta tragédia tem um propósito que nem todos nós podemos alcançar: um pequeno e invisível vírus conseguiu colocar todos “no mesmo barco”, tirar das ruas ricos e pobres, esvaziar os shoppings e as baladas, as escolas públicas e as particulares suspenderam as atividades, patrões e empregados “entenderam-se” sobre o fechamento do comércio, os idosos passaram a ocupar o centro das atenções das famílias. Um dos mantras mais repetidos é “Cuidem dos idosos”.
Grandes metrópoles do mundo inteiro são vistas com ruas vazias, famosos pontos turísticos desertos, as bolsas e os investimentos despencando, o medo se instalando até entre os mais equilibrados, as igrejas esvaziadas dificultando que as energias se juntem em pedidos aos céus. Ao mesmo tempo as perguntas se impõem: E depois que essa tragédia passar, como estaremos? Quantos amigos teremos perdido? Como nos recuperaremos? E se parte dessas ações fizeram-se ou não se fizeram apenas por questões menores, mesquinhas ou espúrias? As decisões manipuláveis terão gerado mais dor e perdas? Como sairemos dessa situação? Como seres humanos mais humanizados, como pessoas mais tolerantes? Nosso  olhar estará mais  treinado para separar o joio do trigo? Teremos crescido ou diminuído moralmente, espiritualmente e afetivamente?  
A situação inusitada e muito séria não nos impede de questionar ainda mais: quais os interesses por trás dessa tragédia “natural”? Esses interesses teriam gerado ou apenas se utilizaram dessa tragédia? Na verdade, estamos vivendo no turbilhão de uma pandemia alternando riso e seriedade, crença e descrença, pavor e euforia. Parece que estamos vivendo um filme de terror e nos pegamos, amiúde, tentando desvendar os meandros misteriosos que sempre existem por trás de um grande “evento”, seja ele bom ou ruim.
Ouso dizer, palmas nas janelas dos grandes edifícios, das grandes cidades, me parecem mais falta do que fazer do que expressão de um sentimento legítimo de admiração pelos profissionais da saúde. Embora esses profissionais mereçam, sempre, não apenas agora, não há dúvida nenhuma.
(*) Aldora Maia Veríssimo é presidente da AVL (Academia Venceslauense de Letras)


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