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É Natal

Acordei no horário de costume e após minha higiene matinal dirigi-me à cozinha para o meu desjejum: meu leitinho com café solúvel, minhas torradas com requeijão e mamão. Uma manhã normal, um dia normal, um fim de ano normal, que passaria despercebido, não fossem alguns rumores vindos do banheiro social. Estranhei, pois estava sozinha em casa.


Sem atinar com as possíveis razões desses ruídos: barulho de descarga, torneira aberta, porta do armarinho abrindo e fechando, dirigi-me ao banheiro, cuja porta estava naturalmente fechada; abro-a e vejo, sem o menor susto, que no meu banheiro há uma criança escovando os dentes com toda a naturalidade possível. Era lindo o contraste do creme dental com sua pele.


Meus filhos já casados e  portanto em suas casas. Por incrível que pareça, não me espantei com essa cena impensada. Uma criança, cerca de 7 anos, não sabia seu nome, mas não estranhei sua presença, era como se eu soubesse que ela estaria ali, tudo muito natural. Voltei para a cozinha e preparei seu café sem hesitar: eu sabia do que ela gostava. Coloquei o sucrilho no potinho, acrescentei o leite e o morango picado; o pão foi incrementado com requeijão cremoso.


A criança senta-se para tomar o café e eu digo as palavras de sempre:


--- Cuidado! Não encha a boca demais! Não suje a toalha!


O que estaria acontecendo? Quem seria essa criança? Por que ela está em minha casa, comportando-se com tanta naturalidade? E por que eu não consigo dizer nada? Por que não me espanto?


--- Você já decidiu? Será minha mãe? disse a criança, com o tom de voz mais suave e familiar que já ouvi.


Sua voz parece ter me tirado de um estado de alucinação: é real, essa criança está em minha casa e quer que eu seja sua mãe! Mas eu já tenho filhos, casados, tenho netos, todos moram longe e nem sempre podem me visitar. Meu marido?  Já o perdi, ainda não me acostumei com a solidão. E agora, o que faço? Não sei quem é esta criança. Terá família, pais, irmãos? Não, tenho certeza de que eu sou sua família. Está decidido. Serei a mãe dessa criança! Agora o Natal estará completo, a criança chegou!


Agora, cabe-me enfeitar a casa, porque o Natal já está chegando. As janelas, enlutadas desde a morte de meu marido, foram abertas para arejar o ambiente, busquei nos armários os enfeites natalinos acumulados e os ajeitei dando-lhes nova vida, enchi a árvore do jardim de luzinhas coloridas, de todas as cores, desembaracei os pisca-piscas e enfeitei a varanda. Até o horrível Papai Noel, com luz na barriga, foi ressuscitado. Foi uma canseira. Percebi as vizinhas me olhando com estranhamento pois há alguns anos eu deixara de enfeitar a casa para o Natal. Ouviam-me conversar e gesticular sem atinar com meu interlocutor, mas eu estava feliz, era fácil perceber.


Sabia que não choveria até a noite de Natal, então conforme comprava presentes para a minha criança, ia colocando-os sob a árvore no jardim. As caixas de diferentes tamanhos e cores foram se avolumando e chamando a atenção dos curiosos. Mas, eu estava feliz, era fácil perceber.


Dia 24 chegou. Outra canseira. Agora era assim, cansava-me com frequência. Saí para comprar tudo o que necessitava. Agora era fazer tudo: fiz o arroz doce que meu filho tanto gosta. E o pudim de leite condensado, sobremesa favorita de minha filha. Delícia! E o brigadeirão!!! As carnes encomendei com uma amiga que aproveita as datas festivas para ganhar um dinheirinho extra. Ela se espantou, certa de que eu estava exagerando na encomenda. Ela não sabia que, na minha casa, tinha uma criança e crianças comem muito. Mas, ela viu que eu estava feliz. Era fácil perceber.


Tudo pronto, era só esperar a hora da ceia. Enquanto isso assistiríamos ao especial de Natal, na televisão. A mesa posta, as luzinhas acesas, os presentes sob a árvore do jardim. Sentamo-nos em frente à TV para esperar a meia noite.


--- Mamãe, chegamos. Por que não veio nos abrir a porta? Conseguimos chegar juntos, seus filhos, nora e genro, e seus tão queridos netos!


--- Ei, vovó! Vovóó!!!


Só o silêncio recebeu essas vozes alegres. A televisão ligada, som muito baixo, para não incomodar o sono da criança que dormira em meu colo. A cabeça recostada, eu ouvia, mas não conseguia responder. Estava cansada. Muito cansada. Um sorriso nos lábios, era fácil perceber, eu estava feliz.


( ... )


Filhos, nora, genro e netos estranharam ao ver tantos brinquedos espalhados pela casa. “Não estou entendendo, mamãe era tão organizada!”

 

(*) Aldora Maia Veríssimo – AVL – Cadeira nº 04

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