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É preciso coragem


Viver é muito perigoso! Mais uma vez utilizo uma frase do majestoso livro “Grande Sertão, Veredas’ de Guimarães Rosa para algumas reflexões. Comparo a nossa vida como um rio que corre, às vezes caudaloso e traiçoeiro, às vezes manso e tranquilo, cujas águas que passam nunca mais retornam de tal modo que só por uma única vez passam. Assim também é nossa vida pois cada momento, cada dia, cada segundo que passa não volta mais. Nunca mais. Nascemos numa das margens deste rio da vida e temos a missão de fazer sua travessia para, finalmente, chegarmos à outra margem e ao fim de nossa jornada. Evidentemente durante esta passagem vamos encontrar águas tumultuadas e águas mansas e isto acontece desde o momento de nosso nascimento e com todos nós. Sim, nascer é um trajeto difícil e exige de cada um uma luta intensa e, às vezes, enorme sofrimento, afinal deixar o ventre materno onde tudo é agradável e de repente sorver o ar que penetra em nossos pulmões com pressão positiva alargando nossos brônquios e alvéolos não deixa de ser um grande sacrifício. Na primeira infância, amparados pelos nossos pais, nos desenvolvemos enfrentando as pequenas adversidades que a vida nos impõe como aprender a andar, a falar, a pedir o que queremos e necessitamos...Totalmente dependentes muitos de nós, abandonados à própria sina, temos que enfrentar o descaso, a fome, a miséria e a violência. Infelizmente há os que não sobrevivem e, assim, acabam perecendo ainda muito próximos da primeira margem do rio. Na adolescência, embora ainda seja raso, o rio da vida já apresenta corredeiras traiçoeiras e letais levando muitos jovens a escolher percursos que por certo os levarão a enorme sofrimento e dor. Mas como nesta fase da existência nos consideramos imortais muitos de nós enveredamos pelos caminhos das drogas, do alcoolismo, da prostituição sem imaginar que a outra margem do rio da vida será alcançada muito mais depressa e com muito mais sofrimento. E na luta diária pela sobrevivência muitos jovens fazem escolhas erradas, se afastam do caminho traçado pelos ensinamentos de Deus, se tornam egoístas, perversos, agressivos, depressivos e ficam adultos sem nenhum preparo para a vida. Agora estamos no lugar mais perigoso do nosso rio; no meio dele onde a correnteza é mais traiçoeira e onde a travessia final vai depender muito, mais uma vez, de nossas escolhas. E precisamos escolher bem pois a oportunidade é única e as águas que passam não voltam mais. Esta dúvida sobre nossas escolhas exige de nós discernimento, dedicação e fé. Escolher mal, nesta fase, o percurso, com certeza terminaremos a travessia com enorme sofrimento. Assim, muitos de nós não consegue chegar `a segunda margem do rio e outros chegam já sem condições para sentir a brisa suave e perfumada que ela nos oferta para nosso descanso. Chegamos à velhice e quando olhamos para trás vemos que apesar de tantas vicissitudes conseguimos atravessar o rio de nossas vidas. Nada vamos levar conosco mas deixaremos um legado de luta, de trabalho, de entrega e amor que por certo vão estimular futuras gerações e servir de exemplo aos que vierem depois. Afinal enfrentar a vida é sempre muito difícil, viver é muito perigoso... É preciso coragem!


(*) O autor é médico e membro da Academia Venceslauense de Letras

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