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A inexorabilidade do tempo

Atualizado: 20 de jun.



Não gostaria, mas estou melancólica e creio que minha ficha caiu. Não só eu envelheci, mas meus amigos também. Parece óbvio, mas estou falando de percepção e não de calendário!

A morte trágica de Marília Mendonça, independente de nossa apreciação pelo seu talento ou não, mexeu com meus sentimentos. Ouvimos várias vezes as pessoas dizendo: “Essa não é a lei natural da vida: uma mãe enterrar uma filha!”


Qualquer pessoa de boa índole deve ter se colocado no lugar dos familiares, amigos e funcionários e tentado mensurar o que significou essa partida prematura.


Ao mesmo tempo é um “sacode” para todos nós. A morte é natural, todos sabemos; ela não avisa, todos sabemos; devemos estar preparados, todos sabemos. Mesmo sabendo tudo isso, nem todos a encaram com a naturalidade necessária. Ninguém está preparado, acredito eu, para perder alguém, ainda mais quando se trata de jovens. Falando sério, perder velhos amigos também é muito triste.


Sempre que perco alguém que amo, sinto-me definhar também. E nessa levada, fiquei pensando nos familiares e nos amigos que amo. Há cerca de quinze dias ouvi um amigo maravilhoso, saudável, produtivo dizer: “Tenho adquirido tantos livros, que certamente não os lerei até a minha partida!” Fiquei vários dias com essa frase martelando na minha mente e inconformada com essa possibilidade tão certa, tão natural.


Em outro momento, ouvi um outro amigo, de longa data e de intenso afeto dizer: “Sei que estou no fim. Eu sei como tenho me sentido, nada específico, mas uma suave sensação de término!” Novamente fiquei entristecida, estado de negação, inconformismo visceral.


E hoje, ouvi: “Estou velhinho, com algumas comorbidades, minha memória está falhando… é a idade, não há como reverter!”  Fiquei indignada, resmunguei, tentei dissuadi-lo e enquanto eu falava, com voz alterada pela emoção, ouvia seu riso claro e resignado.


Raciocinando friamente, é isso mesmo, somos finitos, mas admito, tenho dificuldade para encarar essa situação. Tenho convicções, acredito em Deus, mas acredito que preciso evoluir como ser humano para preparar meu espírito para o enfrentamento das despedidas. Assim espero, assim creio, assim quero evoluir. Cabe aqui um poema de Cora Coralina, que merece ser compartilhado:


Saber Viver

Não sei se a vida é curta

Ou longa demais pra nós,

Mas sei que nada do que vivemos

Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas

Muitas vezes basta ser:

Colo que acolhe, braço que envolve,

Palavra que conforta, silêncio que respeita,

Alegria que contagia, lágrima que corre,

Olhar que acaricia, desejo que sacia,

Amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,

É o que dá sentido à vida.

É o que faz com que ela

Não seja nem curta,

Nem longa demais,

Mas que seja intensa,

Verdadeira, pura… Enquanto durar!


(*) Aldora Maia Veríssimo – Presidente da AVL

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