top of page
Buscar

Brasilidade


Estamos no século 21 e neste momento de nossas vidas percebemos que cada vez mais estamos perdendo a nossa característica de brasileiro, ou seja, estamos perdendo nossa brasilidade. Falamos em Whatsap, em stand by em Hot Dog, em power e, com certeza, nos distanciamos de nossa língua mãe e de nossas tradições. Somos um país sabidamente sem memória e nossas futuras gerações estão fadadas a viver em um Brasil à rabeira das grandes nações do mundo, principalmente dos Estados Unidos. Não há dúvida de que a internet e a tendência de globalização estão modificando nossas vidas e estamos nos transformando em pessoas que vivem literalmente numa aldeia global mas urge que lutemos para manter as principais características de nossa gente: a alegria, a espiritualidade, o amor à nossa terra, a valorização do trabalho, a gentileza, a fraternidade espontânea, a coragem de enfrentar as vicissitudes, a fé em Deus e, o que considero maravilhoso, o poder de rir de si próprio, de brincar com as pequenas falhas e de contar os “causos” que fazem parte de nossos encontros em família e com os amigos e que definem o brasileiro como um povo bom, pacífico e com um “astral” maravilhoso!


Neste sentido há alguns dias, no feriado, através da TV, assisti a um programa que toca diretamente em nossa brasilidade. O programa “Sr Brasil”, comandado por Rolando Boldrin, espelha exatamente a assertiva que procurei expressar acima. Boldrin, artista, apresentador, cantor, declamador, poeta, escritor, representa com seu programa o que resta do Brasil caipira, do interior, daquele Brasil eivado de luta, mas também do país de paz e fraternidade que nós, mais velhos, tivemos o privilégio de conhecer. Nascido em São Joaquim da Barra, lá na Mogiana, próxima a Ribeirão Preto, em 22 de Outubro de 1936, desde a infância já demonstrava seu pendores artísticos. Aos 12 anos com o irmão formou a dupla caipira “Boy e Formiga” que fazia sucesso nas rádios da região. Aos 16 anos foi para São Paulo e aí não parou mais. Fez teatro, cinema (o filme “Doramundo” lhe deu o prêmio de melhor ator pela APCA) e televisão. Na Globo, na Bandeirantes e na Cultura, principalmente, Rolando comandou programas que representam exatamente a alma do povo brasileiro e, sem dúvida, é o maior exemplo de brasilidade que hoje possuímos. Seus “causos” são hilários e retratam a nossa personalidade de povo amigo e feliz, principalmente, nós que habitamos o interior do país.


Transcrevo um de seus “causos” que me divertiram naquele dia em que o assisti. ”O trem da mogiana na época era o grande meio de transporte na região, bem como em todo o interior do estado. Naquele dia estava lotado indo para Ribeirão Preto quando entrou no vagão um jagunço matador famoso por ali como um grande matador a serviço dos coronéis. Na cintura dois trabucos e trespassado no peito, embainhado, um enorme facão. Homem de maus bofes fez todo mundo tremer naquele momento e se sentou ao lado de um caipira franzino que talvez não o conhecesse. Puxou o chapéu sobre os olhos e logo adormeceu, talvez cansado pelas refregas do dia. E o trem seguiu o seu trajeto, resfolegando e soltando fumaça; em cada estação que parava dava o seu solavanco e o caipira, que estava viajando pela primeira vez, foi enjoando, se sentindo mal. O valentão dormindo a sono solto e o caipira não aguentando mais “descomeu” em cima do paletó do facínora. Nossa! O povo todo tremeu e muitos começaram a orar baixinho pedindo pela vida daquele infeliz, pois, por certo, ao acordar, o jagunço o mataria sem piedade. Finalmente o trem chegou em Ribeirão. O homem acordou, passou a mão pelo paletó e ela veio toda melada do vomito. Olhou para todos que estavam próximos e então encarou o caipira que com um sorriso tranquilo lhe disse: melhorou?”

Este é o Brasil que conhecemos e com certeza esta é a brasilidade que queremos.


(*) O autor é médico e membro da Academia Venceslauense de Letras

Comments


bottom of page