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Cheirosinho


Olha para o espelho pela última vez, e o que vê lhe faz sentir melhor. Acordou nesta manhã com uma sensação esquisita de perigo iminente. Não sabe ao certo, entretanto, parece que algo muito insólito, porém dramático está prestes a acontecer. Quem sabe foi o sonho da madrugada que insiste repetir quase que semanalmente. Sonho este, que o remete à infância, quando menino ainda, vendo a mãe com os seios de fora e aquele estranho a sugá-los, e ele atrás do armário com o sentimento dúbio de medo e prazer, contudo, nunca teve coragem para contar à mãe o que vira, ainda assim nunca esquecera aquela cena que se repetia sempre em seus sonhos. Engraçado é que após eles surgia em seu âmago, em suas entranhas, o desejo irrefreável de agir. Após os sonhos, desvairado, sem controle, saia com a moto em busca daquele prazer que era efêmero, porém incontrolável. O arrependimento vinha em seguida, penoso, lancinante e seguido de um “mea culpa” e promessas de que isto não mais se repetiria. No entanto, pouco tempo depois estava novamente cometendo o mesmo ato.


Samuel gostava de se vestir com esmero e elegância. Camisa polo, jeans Pininfarina, mocassim Ferracini eram suas indumentárias preferidas. Também adorava os perfumes e entre eles o “212 sexy”. O apelido de cheirosinho o envaidecia e nas abordagens às mulheres sempre dizia “eu sou o cheirosinho”. Lembrou sem esforço da primeira ação: a menina, uma morena linda, tremendo muito no vão da porta daquele prédio e ele também trêmulo, com secura na boca, mal conseguindo falar, pedindo que mostrasse os seios e depois, ao olhá-los, sentindo um gozo profundo que subia do seu sexo e explodia na mente como fogos de artificio, sensação inimaginável que o fazia “viajar” por campos floridos. Abandonou-a rapidamente com muito medo e só foi se sentir melhor quando estava seguro em seu apartamento. Naquela noite não conseguiu dormir, refletiu sobre suas culpas e remorsos de joelhos implorando a Deus o perdão. No entanto, alguns dias depois novamente o desejo voltou a aflorar seu ser e aquela loira de bermudas e camiseta, sozinha no ponto de ônibus, na rua escura do Boqueirão, não era apenas um convite, e sim uma imposição. Diante dos fatos, então, mais uma vez, aconteceu. A gordinha deixou-o abalado.


Abordava a mulher com a desculpa de solicitar uma informação e a subjugava dizendo que tinha uma arma e que a mataria se não o acompanhasse e realizasse seu desejo. A gorda, no entanto, reagiu aos gritos e avançou sobre ele dando-lhe grande susto e fazendo com que se evadisse rapidamente do local. Então resolveu passar a usar um revólver apenas para fazer intimidação. E deu certo. A partir disto mostrava a arma e a resistência era mínima.


Arrependimento tinha sempre. Quase todas as vezes prometia não fazer mais aquilo, no entanto, o vício era incontrolável e absurdo, um impulso poderoso que o dominava completamente, e lá voltava ele a cometer o ato. Achou que devia consultar um psiquiatra, e lá foi. O psiquiatra mal olhou para ele e o despachou com uma receita de clonazepan que o deixava tonto e nauseado. Em certos momentos acreditava piamente que não estava cometendo mal algum. Pelo contrário, apenas admirava os seios e sentia prazer inebriante ao vê-los, porém jamais havia tocado em uma mulher, e nunca havia abusado delas, e, se alguma vez fora ameaçador com alguma, ao se despedir pedia-lhes desculpas. Na verdade, elas apenas ajudavam-no a realizar um desejo profundo, inexplicável, visceral e incontrolável, que lhe proporcionava prazer e dor.


Afinal, que mal poderia haver nisso?


Samuel olha mais uma vez para suas vestes e satisfeito, sai. Ainda é bem de manhã e nessa hora o trânsito em Curitiba flui com facilidade. A moto está limpa, impecável e a placa coberta com adesivos como sempre. Passa pelo mercadinho e compra um “Halls” forte para o hálito ficar perfeito. Em seguida dirige para a Visconde de Guarapuava onde a Maternidade Nossa Senhora de Fátima recebe uma quantidade imensa de mulheres. Ali, por certo, vai encontrar o que deseja. Já não pensa em mais nada, somente na sua fantasia.


Coração a mil. O pênis dando sinal de vida, enquanto ele vagueia por entre os grupos de mulheres e logo escolhe a que lhe interessa.


Não sabe o porquê, mas a escolhida o faz lembrar a mãe. Talvez os seios avantajados, quem sabe. Sente novamente certa inquietude, sinal de perigo... A força do desejo já não controla mais. Consegue levar a menina para o corredor de serviço do hospital que conhece, pois ali esteve algumas vezes com outras garotas. Sua fala é rápida e sibilante: “tire a blusa e o sutiã por que quero ver os seus seios”. A pequena treme muito e isto o deixa mais excitado ainda. Revolver na mão e a imagem da mãe surgindo teimosa no pensamento. Não há a menor possibilidade de mudança no seu ato; Samuel está completamente tomado pela vertigem e não percebe mais nada, não escuta e não enxerga...... Pela primeira vez estende a mão e toca no seio daquela mulher. È como se tocasse no calor protetor do colo da mãe.


Osório está acabrunhado ultimamente. Investigador de policia há mais de 30 anos não consegue encontrar estímulo e vibração em sua atividade. Além disso, já viu e fez de tudo nesta profissão. Prendeu ladrão de galinha e marginal perigoso, ficou de campana dias seguidos para capturar traficante e contrabandista, botou para correr gigolô na zona do meretrício e foi perseguidor implacável de tudo quanto é bandido. Evidentemente algumas vezes teve que matar alguém. Paciência! Faz parte da profissão. Agora, com a aposentadoria chegando, começou a ficar triste, deprimido. Separado da esposa há 10 anos só tem noticias dela e do filho único eventualmente. Na verdade, sempre foi um pai ausente. Coisas da sua função, no entanto, ultimamente tem sentido falta de ter uma família. Quase nunca fala com o filho e isto dói no peito. Parou de tomar o “rabo de galo” no final da tarde e isto parece deixá-lo mais irritado. O delegado Cláudio era seu amigo, todavia, designá-lo para aquela missão tinha sido sacanagem. Tanto investigador mais novo no pedaço e ele a procurar esse tal de “Cheirosinho”, um estuprador maluco que mexia com mulheres e depois se desculpava. Só faltava esta em sua carreira! E instintivamente sentia ódio do sujeito. Se o pegasse iria quebrar-lhe os ossos. Na sua concepção a fama do tal estuprador era por culpa da mídia, já que, a mídia divulgava a imagem como “o bandido romântico”!


Bah! Não existe bandido romântico...


A manhã começou friazinha em Curitiba como acontece neste período do ano e Osório, ao sair, vestiu um velho sobretudo e no bolso o “38”. Desceu a Rua Dr Murici com o Gol preto de placa adulterada, parou no bar para comprar cigarros e foi em direção ao bairro Prado Velho onde funcionava a Universidade Católica com grande frequência de mulheres jovens, e com certeza, havia a chance de encontrar o tal Cheirosinho. Por vários dias o investigador ficava rodando perto de locais onde se aglomeravam mulheres na tentativa de encontrar o tarado. O duro é que o danado mudava muito o lugar de ataque e, também, mudava os dias de agir, o que dificultava a ação do investigador. Ao passar pela maternidade Nossa Senhora de Fátima observou um grande número de mulheres em frente ao hospital e um pressentimento o fez acelerar seu coração. Ali o homem já estivera há algum tempo. Será que voltaria? Pressentimento é pressentimento e Osório resolveu parar. Estacionou o carro e foi caminhando até a porta do hospital.


Ao passar pelo portão do corredor de serviço observou um vulto junto a parede e percebeu um brilho metálico na mão de um sujeito. Nesta hora a experiência é tudo. Osório teve certeza de que se tratava de uma arma. Rapidamente abriu o portão e avançou em direção ao vulto que, agora mais perto mostrava ser de um homem agarrado a uma mulher. Mais propriamente aos seios de uma mulher. O sujeito deu a impressão de que iria levantar a arma e Osório atirou. O estampido do tiro foi enaltecido pelo ronco da moto possante que passou pela avenida, mas o homem balançou como pêndulo, e caiu escorando a cabeça ensanguentada nos seios da mulher que escorregou para o chão com ele. O detetive, então se aproximou e viu que ali estava o “Cheirosinho”, a arma na mão e um perfume intenso do “sexy 212” exalando do corpo.


(*) O autor é médico e membro da Academia Venceslauense de Letras

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