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Cidade maravilhosa


O Rio de Janeiro continua lindo! Vejo isto através de fotos e vídeos que mostram a cidade: o Cristo Redentor e o Corcovado, o Pão de Açúcar e seu bondinho, a Quinta da Boa Vista, a lagoa Rodrigo de Freitas, a calçada na praia de Copacabana; tudo lá é digno de cartões postais! Folheio em minhas mãos o livro “Metrópole a Beira Mar’ escrito por Ruy Castro, jornalista e escritor famoso destacando-se como biógrafo com as biografias de Carmem Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues. No livro citado Ruy nos mostra como era o Rio na década de 20, logo após a primeira guerra mundial e, principalmente, após a pandemia da gripe espanhola que, devastadora, matou cerca de 600000 pessoas na cidade que era a capital da república. E o Rio era mesmo uma grande metrópole para a época! Com uma população de cerca de um milhão de habitantes, duas vezes maior que São Paulo, a cidade se apresentava com extraordinário progresso na imprensa , na literatura, na música popular, no cinema, na ciência, no futebol, na luta das mulheres e nos costumes; nesta época pela primeira vez as pessoas começaram a ir à praia e tomar banho de mar, as mulheres começaram a sair nas ruas , a deixar os cabelos curtos e a lutar pelos seus direitos como, por exemplo, votar, ato que só aconteceu a partir de 1932 com Getúlio Vargas. Nesta época também começaram a ocorrer as transformações urbanas que levaram o Rio a ganhar o apelido de “cidade maravilhosa “ e a marchinha de carnaval homônima composta pelo músico André Filho em 1935 virou o hino da cidade.


Quando criança e adolescente tive contato frequente com o Rio. Ali moravam minha avó e meus tios maternos e, então, nas férias de final do ano, mamãe nos levava para lá. E eram férias maravilhosas! Uma festa! Ficávamos no apartamento de vovó na Rua Voluntários da Pátria, pertinho do famoso largo de Humaitá, em Botafogo, próximo ao morro Santa Marta, e brincávamos por ali sem nenhum risco. Íamos à praia no Leblon: pegávamos o bonde (ainda havia bonde) passávamos pelo Jardim Botânico (obra de D. Pedro II), pelo jardim de Alá, pelo campo do Flamengo e descíamos bem em frente à praia. Acompanhados pela mãe ou por uma das tias nos divertíamos na areia e molhávamos os pés nas ondas do mar. O carioca era muito simpático, alegre e acolhedor sempre pronto a nos atender com atenção e carinho. Adolescentes saíamos a noite com os primos e não havia nenhuma preocupação com nossos passeios e noitadas.


O tempo passou e a “cidade maravilhosa” se transformou totalmente. Hoje vemos uma urbe perigosa e degradada; a população vítima das milícias, do narcotráfico, do crime organizado e das balas perdidas está presa dentro de suas casas e os índices de criminalidade são estratosféricos. Nos bairros nobres os assaltos acontecem à luz do dia e no subúrbio o trabalhador é obrigado a pagar taxas de segurança, de gás, de internet para as quadrilhas e os que desobedecem são expulsos de suas moradias. E isto acontece porque a corrupção, os conchavos, o protecionismo e, principalmente, a certeza da impunidade é fato comum. É óbvio que tudo isto não ocorre só no Rio de Janeiro. O Brasil todo abismado vê recrudescer a vilania e o crime. Leis muito brandas, facilidades para quem cumpre pena, certeza de que logo estarão na rua, miséria, desesperança no futuro do país e discrepância abismal entre a minoria muito rica e a multidão extremamente pobre são fatores que levam a este estado caótico. E o Rio de Janeiro de maneira plena e inquestionável representa tudo isto...


Pois é, a cidade maravilhosa continua linda! Nós é que não podemos mais visita-la!


(*) O autor é médico e membro da Academia Venceslauense de Letras

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