top of page
Buscar

Com certeza a minha cidade


trem chegou com um pouco de atraso. Estação lotada naquele domingo de manhã. Sol forte e perfume de café no ar. O doutor desce do vagão e aspira o ar matutino com sofreguidão e esperança, afinal escolhera aquela cidade para começar sua vida de medico e queria muito que tudo desse certo. Tinha tido a oportunidade de ficar na capital, fazer uma especialização, seguir carreira de mestre e ficar famoso mas não era o que queria...na verdade seu sonho era se firmar numa cidadezinha do interior, atender pessoas simples, servir a comunidade com dedicação, transformar a profissão em verdadeiro sacerdócio. Também a experiência trágica que tivera no final do curso quando em um parto normal a criança nascera morta foi fator decisivo para sua ida para o interior.


Saiu da estação e andou por linda praça com árvores frondosas e alamedas limpas ouvindo o gorjeio dos passarinhos e o alarido das crianças que por ali brincavam. Na esquina encontrou um ponto de charretes, subiu em uma delas e pediu ao condutor simpático e risonho que o levasse a uma boa pensão. Na parte alta da cidade, bem próxima ao único hospital, a pensão Coimbra era simples e muito limpa, o quarto arejado com uma cama de solteiro, guarda roupa pequeno e uma escrivaninha era tudo o que o doutor queria e precisava. Da janela podia avistar a rua principal com seus caminhões carregando pesadas toras para as serrarias e carroças com fardos de algodão destinados aos armazéns da estação. Na palmeira em frente araras azuis faziam algazarra. Coração pulsando de alegria e o sonho, uma das bases da vida, tomando conta de seus pensamentos.


Os dias correram céleres e o doutor no seu afã diário nem tempo tinha para descanso. Nem mesmo uma cartinha para a noiva Ivani conseguira escrever. Vários casos de tifo e malária, desidratação infantil, fraturas de braços e pernas decorrentes dos serviços brutos da retirada da madeira da mata, tudo passava pelo doutor e a todos atendia com zelo. Só sofria um pouco, intimamente, quando atendia gestantes porque o espectro do passado, daquela tragédia ainda tão vívida em seu coração, o deixava inseguro e temeroso.


Naquela noite do início de setembro pela primeira vez o doutor foi chamado para fazer um parto; ficou tenso, preocupado...Parto no domicilio, sem o apoio do hospital, porque era assim que ocorria. Ao chegar à casa da parturiente encontrou o marido na varanda e no quarto acompanhando a mulher uma senhorinha obesa e baixinha com grande bócio tireoidiano já cuidando da paciente. “Sou dona Romana a parteira da cidade” lhe informou a velha e o doutor viu em cima de uma mesa bacia de água quente, muitas toalhas limpas, barbante e uma tesoura. Desculpou-se com a parteira e pediu que ela se retirasse para que ele, o doutor, fizesse o parto. Preparou o seu material trazido dentro da maleta e examinou a mãezinha com uma luva. Considerou que estava tudo bem e que em pouco tempo o bebe nasceria. Sentou-se para esperar. As horas foram passando e a mulher em dores não conseguia parir. Um medo enorme foi tomando conta de seu ser e o doutor desesperado saiu para a sala pensando em conseguir condução urgente para levar a paciente para o hospital. Na sala estava dona Romana que entrou e começou a conversar com a parturiente com carinho mas com determinação a incentivando e mostrando como deveria fazer para ter o rebento. Pouco tempo depois o doutor que estava procurando um carro para transportar a mulher ouviu o vagido do nascituro e correu para o quarto. Dona Romana já estava colocando o bebe no seio materno “para não dar hemorragia” segundo ela e coube ao doutor retirar a placenta. Após estar tudo bem com a mãe e o bebê a velha senhora se aproximou do médico e humildemente lhe pediu desculpas pela sua intervenção. Lágrimas sinceras brotaram dos olhos do facultativo...


A madrugada o apanhou ainda acordado em sua cama na pensão e, de repente, ouviu claramente os acordes de uma banda marcial. Emocionado saiu à janela e viu que estava ocorrendo uma alvorada porque naquele dia, dois de setembro, a cidade fazia aniversário! Então sentado na cama agradeceu a Deus e soube que aquela era a sua terra, a sua cidade!


(*) O autor é médico e membro da AVL (OBS: Este conto foi o primeiro colocado no primeiro Concurso de contos e poemas “escritora Arlinda Garcia de Oliveira Marques” promovido pela SEMEC de Presidente Venceslau em 2020)

Comments


bottom of page