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Complexo de vira-lata

Atualizado: 20 de jun. de 2023



Há alguns dias ouvi uma entrevista do Programa “Conversa com Bial”. O entrevistado era Neil deGrasse Tyson: um renomado astrofísico, escritor e divulgador científico americano. Diretor do Planetário Hayden no Centro Rose para a Terra e o Espaço e Investigador Associado do Departamento de Astrofísica no Museu Americano de História Natural. Formado pela Universidade Columbia, 63 anos.


Na entrevista, Neil leu uma “Carta ao Brasil” (sua autoria) em que referindo-se ao nosso país como um personagem, fala dos aspectos da cultura brasileira que qualquer americano já ouviu falar: samba, mulatas, carnaval, praias, futebol e o café brasileiro.


No decorrer, enaltece o fato de centenas de aviões que cruzam os céus pelo mundo serem de fabricação da EMBRAER, cuja identificação nem sempre é visível. Lembra que temos a maior e mais importante floresta tropical do mundo ainda preservada, temos o maior rio do mundo que despeja no oceano uma imensidade de água, lembra que foi Santos Dumont um engenheiro brasileiro que criou a navegação em um dispositivo mais pesado que o ar, diz que o Brasil é líder em produção do biocombustível tão essencial à vida na Terra, somos a 6ª maior indústria espacial do mundo e líder em Tecnologia da Informação na América latina.


Cita que o primeiro e único astronauta  sul-americano e lusófono a ir ao espaço, é brasileiro: Marcos Pontes, Engenheiro, Astronauta, Tenente Coronel da Força Aérea Brasileira, em missão batizada “Missão Centenário”, em  comemoração aos cem anos do voo de Santos Dumont, no avião 14-bis.


Lembrei-me, então, da expressão “complexo de vira-lata” que é internacionalmente atribuída aos brasileiros. A expressão foi cunhada em 1950 pelo jornalista e dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues, como sendo “a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, frente ao resto do mundo”. Refere-se à falta de autoestima; tudo teria começado com a derrota da seleção brasileira na Copa de 50. A expressão se alastrou pelo mundo e os brasileiros, ainda hoje, são vistos como seres inferiores. É comum os brasileiros terem um comportamento autodepreciativo, de si ou de outro brasileiro, e ao mesmo tempo enaltecer tudo o que é de fora do Brasil, normalmente sem conhecer. Até Monteiro Lobato, nobre e respeitado escritor, entre outros, defendia e alimentava essa falta de autoestima com comentários que diminuíam o povo brasileiro.


Em tempos de pandemia, com extremismos se sobrepondo à solidariedade e ao bem comum, com o mau-caratismo grassando a olhos vistos, com o embotamento dos sentidos e da capacidade de análise, onde as palavras sinalizam absurdos e as atitudes são desvirtuadas, de certa forma estamos “colocando sal” em uma ferida que nunca sarou: os brasileiros estão novamente se sentindo inferiores a todo mundo; estamos com medo do futuro, tristes pelas perdas e envergonhados com a estrutura política do País. As notícias controvertidas pelo viés político amarguram e obstruem qualquer possibilidade de sucesso.


Causou-me estranhamento ouvir um americano elencando fatos dos quais deveríamos ter orgulho, mas a maioria desconhece ou não observe. Os argumentos dele procedem. Então, por que somos tão duros em relação à nossa terra natal e às nossas conquistas, que

poderiam ser maiores e mais significativas, mas, há o que aplaudir, há o que valorizar, há motivos para orgulho, há razões para acreditar! Há quem tenha dito que “a miscigenação é a causa de nossos males”; que  “viver nos trópicos, em clima quente e úmido, colabora para a preguiça dos nativos” (uma espécie de determinismo geográfico). Ainda conforme Nelson Rodrigues, a síndrome de vira-lata acaba por criar um “narcisismo reverso” fazendo com que a pessoa valorize o outro antes dela. Muitos brasileiros só enxergam coisas ruins a respeito de tudo o que os cerca, fazendo disso um “marketing” negativo. Por outro lado, o prejuízo que essa síndrome acarreta na nossa forma de produzir conhecimento e passá-lo aos jovens, é incalculável.


Um bom exemplo do complexo de vira-lata é a grande necessidade que o brasileiro tem em se autoafirmar como descendente de outras nacionalidades: “Sou brasileiro, mas meus avós são estrangeiros”. Parece-me que nos falta o sentimento de pertencimento à nação em que nascemos.


Embora cruel, vale relembrar Nelson Rodrigues: “O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima”.

(*) Aldora Maia Veríssimo – Membro da AVL

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