top of page
Buscar

Conto: O lobisomem da baixada


Sexta feira! Sexta feira 13! Para muitos, dia aziago, para Berto dia importante e esperado com ansiedade. O menino, adolescente, rola na cama e se prepara para levantar. Este será o dia em que vai provar para todos, principalmente para o tio Fernandão e para si mesmo, que é corajoso, verdadeiro macho! Tudo começou há algum tempo quando mudou para o bairro, lá na baixada, bem na curva do rio, a família dos Ferreira. Família grande: pai, mãe e sete filhos, todos homens. O caçula, da idade de Berto, porém muito mais alto, com tez pálida, olheiras e penugem no rosto indicando barba precoce. Henri era de poucas palavras, mas ao conhece-lo Berto sentiu entusiasmo pela maneira como o garoto o tratava e, inexplicavelmente, sentiu que seriam muito amigos. Quando tia Genoveva, solteirona espirituosa e contadora de casos, veio almoçar num domingo em sua casa e contou na mesa a estória do lobisomem, colhido de surpresa, Berto teve atitude tão estranha que, pelo menos para a mãe que o conhecia do ventre, algo inusitado acontecera. O menino com olhos arregalados e boca seca ouviu a tia contar que o lobisomem era sempre o sétimo filho homem de uma família com sete filhos todos homens, que nas noites de sexta feira se transformava em um monstro, metade homem metade cachorro e saía a vagar pelas ruas buscando pequenos animais, ovos e excrementos para saciar sua fome e cumprir seu encanto causando enorme alvoroço. No amanhecer o encanto se dissipava e o monstro voltava à sua condição humana. Henri era o sétimo filho homem da família recém-chegada e, imediatamente, surgiu no íntimo de Berto a impressão de que o novo amigo poderia ser uma potestade das trevas. Um medo profundo, visceral, se instalou em seu ser. Não podia ser possível! Henri era gentil e educado, o tratava com muita atenção e, se não brincava com os mesmos brinquedos da turma, aceitava as brincadeiras com paciência e alegria. Tinha por Berto especial atenção e, quando estavam sós, gostava de falar sobre arte, música e literatura pegando em sua mão e olhando em seus olhos com imensa ternura. Mas, havia algo de estranho em Henri. As vezes aparecia com alguns sinais no rosto como se tivesse se maquiado, como se estivesse escondendo alguma coisa. A imaginação na adolescência é fértil e a mente humana é capaz das maiores fantasias. Berto passou a acreditar piamente que o novo amigo era lobisomem. A noite tinha dificuldades para dormir e acordava assombrado nas madrugadas ouvindo os uivos dos cães e o barulho das ruas. Tinha medo e muitas vezes chamou a mãe para ficar ao seu lado. Tio Fernandão, quando soube, começou a chama-lo de maricas e isto lhe trouxe ódio ao coração. Tia Genoveva, no entanto, de outra vez, lhe contou que para quebrar o encanto do lobisomem alguém precisava, com coragem, jogar água de rosas nas costas do bicho numa sexta feira, 13, antes da madrugada. Meu Deus! Impossível! Necessário muita coragem coisa que Berto achava que não tinha. Os dias foram passando e cada vez mais o menino gostava do amigo e, por isso, começou a planejar uma maneira de quebrar o encanto que transformava Henri em um monstro...Conseguiu agua de rosas na feira, um escapulário com São Francisco de Assis, o santo dos animais, para usar contra aquele demônio e....conseguiu a promessa de Totonho, amigo grande e forte, de que o ajudaria!


A sexta 13 finalmente chegou e, ainda na cama, Berto começou a fazer seus planos; à noite iria com Totonho até o caramanchão em frente à casa de Henri e ali, quietinhos, esperariam chegar a madrugada e o momento certo para agir e livrar o amigo de sua sina. Berto estava tremendo de medo, mas o amor que sentia pelo outro era muito intenso e lhe dava coragem. A noite chegou e Totonho não apareceu. Berto pensou em desistir, mas uma força interior o impeliu para a baixada. Não era uma noite comum. Tudo parecia diferente. A lua escondida atrás das nuvens e uma brisa fria que vinha lá do rio e penetrava nos ossos faziam o menino tremer mais do que o normal e, o medo faz coisas, ele ouvia ruídos de todos os lados e tinha a nítida impressão de que uivos estranhos se misturavam ao vento. Uma música esquisita saindo da casa de Henri piorava a sensação de pavor do menino e, assim, num tremendo esforço, na hora em que a “Parsifal” de Vagner emitia seus sons derradeiros Berto chegou ao portão e dali pode ver a sala com a janela aberta e lá, em seu interior, de colam e sapatilhas, com o rosto todo maquiado, Henri fazendo passos de balé. Então entendeu porque o amava!


(*) O autor é médico e membro da Academia Venceslauense de Letras

bottom of page