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Convescote


Você sabe o que significa a palavra convescote? Pois é, pouca gente sabe...Fui ao ‘Aurélio’ e verifiquei que convescote significa ‘refeição festiva e informal ao ar livre (no campo, num parque, num jardim, à beira de um rio ou represa) feita em conjunto geralmente entre amigos ou familiares’, ou seja, convescote nada mais é que sinônimo de piquenique. Ah! Agora sim! Piquenique sei muito bem o que é e a palavra me traz muitas e lindas recordações da minha infância e adolescência, de meu passado.

Hoje em dia não se ouve falar de piquenique. Nas grandes cidades vivemos enclausurados dentro de nossas casas e no interior perdemos o hábito da convivência fraterna entre os vizinhos e parentes. A chegada da TV e, agora, da internet e do smartphone, definitivamente parece que nos jogou em um grande isolamento só mitigado pelos vídeos e vozes à distância de nossos entes queridos e dos amigos. É bem verdade que conseguimos contatos muito mais rápidos e fáceis com os que moram distantes mas a distância não nos permite um abraço, um carinho, uma manifestação mais espontânea e intensa. E não venham me falar de ‘Zoom’ ou ‘Google Meet’ que são reuniões virtuais muito formais e com hora para terminar.

O piquenique era um evento extraordinário em nossa vida comunitária e no início dos anos 60 era extremamente comum entre as pessoas e seus vizinhos, parentes e amigos. Geralmente realizado nos finais de semana mobilizava todos os envolvidos desde o agendamento da data até a organização do passeio, da alimentação e das bebidas a serem levadas e da condução que nos levaria; a expectativa era intensa e durante a semana todos, adultos e crianças, só falavam naquele acontecimento que por certo nos traria alegria, diversão e enorme congraçamento.

Os locais que mais serviam para o nosso piquenique era a Aymoré com o córrego do veado que na época tinha águas limpas e o Figueiral em Presidente Epitácio às margens do rio Paraná pois ainda não tínhamos o grande lago de hoje. Íamos bem cedo para aproveitar o máximo do dia. Ao chegar em baixo da copa de uma grande árvore estendíamos uma toalha na relva e as senhoras espalhavam pelo local sanduiches, paçoca, frutas, pães e até frango recheado para o almoço e a meninada já corria para brincar. O velho tio levava a sanfona e o vizinho a viola e, então, a música se fazia presente com intensidade e alegria. Aliás, se precisava de tão pouco para ser feliz e aquele dia de lazer apagava nossas vicissitudes e trazia a nossos corações principalmente a certeza de que estávamos vivos e a esperança de um porvir cada vez melhor. No final da tarde voltávamos para casa na ‘Rural Willis’ cantando as modinhas de então e cansados mas felizes pelo agradável dia. Num destes piqueniques o amigo Abelardo que estudava a segunda série de ginásio comigo se aproximou da Jandira, filha de uma comadre de mamãe, para lhe pedir em namoro mas a menina não aceitou e na volta cantamos a música de sucesso do Wanderley Cardoso que dizia ‘o piquenique foi bom mas a volta é que foi tão triste’ e até o Abelardo, meio sem graça, acompanhou a cantoria. Assim era a vida que corria serena pelos seus dias como o riacho de águas claras que serviam ao nosso lazer. O tempo passou e as mudanças foram transformando nossas vidas. Hoje apenas guardamos na memória os encantos daquela época que era tranquila, fraterna e amiga.

Há algum tempo fui a Córdoba na Argentina e com o amigo argentino visitei a Vila Carlos Paz que fica próxima à cidade industrial, polo de desenvolvimento econômico da região central do país. Em Carlos Paz numa grande praça gramada, com árvores e um lago assisti centenas de pessoas fazendo o piquenique com toalhas na relva, crianças brincando, senhoras servindo quitutes e os velhos tocando no Acordeom, lá chamado gaita, as músicas do povo. Abismado ao ver aquele congraçamento das famílias e dos amigos na tarde de domingo lembrei-me dos velhos tempos do piquenique e meu amigo Fábio me contou que apesar de todo o desenvolvimento a Argentina ainda tem muitas tradições que permanecem como esta reunião ao ar livre que lá recebe o nome de convescote. Ah! Que bom! Que o piquenique seja permanente lá e no coração de todos nós.

(*) O autor é médico e membro da Academia Venceslauense de Letras

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