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Coragem e resignação


Nos conhecemos muitos anos atrás quando, eu ainda prefeito, caminhava pelas ruas dos bairros buscando encontrar soluções para tantos e tantos problemas. Ali, nos altos da vila, a água era bem preciosa, pois sua falta era constante e martirizava os moradores, quase todos trabalhadores na roça e produção do melão ou na cidade, pedreiros, assentando tijolos e levantando casas. O velho homem estava sentado em frente à sua residência em um banco de madeira junto à cerca e me recebeu com um sorriso de boas-vindas que, de jeito nenhum, era falso, hipócrita ou de desdém. Sentei ao seu lado limpando com o lenço o suor que escorria pelo rosto e empapava a camisa e aceitei o copo de água gelado que sua esposa me trouxe do interior da casa que era humilde, pequena, mas extremamente limpa, asseada. Então, durante a conversa, me teceu considerações que me demonstraram a sua inteligência, perspicácia, senso humanitário, raciocínio lógico e crítico e, acima de tudo, uma lucidez que ainda não tinha conhecido. Ficamos amigos! E, como amigos, fizemos confidências, abrimos as portas de nossa vida. E ele me contou que nascera lá no interior de Sergipe, próximo do rio São Francisco, quase divisa com Alagoas, região inóspita onde a seca era frequente e a caatinga não permitia ao sertanejo qualquer tentativa para sobreviver. Viera menino para São Paulo no “pau de arara”, caminhão em cuja carroceria coberta por uma lona havia tábuas presas de um lado a outro onde se sentavam, a viagem transcorrendo desta maneira. Fome, calor durante o dia, sede, frio nas madrugadas, distâncias nunca imaginadas por aqueles emigrantes, faziam a esperança, muitas vezes, escapar de suas almas e vazar como lágrimas pelas faces ressecadas pelo sol escaldante das estradas do nordeste. A coragem e a resiliência eram extremamente necessárias e meu amigo as teve já no primeiro enfrentamento desta mudança. Nos primeiros dias da viagem comia farinha de mandioca e rapadura e bebia da água, que era fornecida pelo homem do caminhão, quente e salobra. Em São Paulo espantou-se com a grandeza da metrópole e preferiu vir para o interior para trabalhar na lavoura. Aqui trabalhou de sol a sol sem se queixar um dia sequer, casou-se e constituiu sua família, pois a mulher lhe deu 6 filhos. Sozinho, primeiro na roça e depois como pedreiro, levantando de madrugada e indo dormir após todos, sem um dia de férias, sem domingos ou feriados, conseguiu fazer os meninos, todos, estudarem e se estabelecerem na vida, o mais velho pastor evangélico, as meninas professoras e o caçula advogado. Isto me contou sem nenhuma manifestação de orgulho, mas como se fosse uma missão que cabia a ele cumprir. Afinal, quase analfabeto, compreendia que a educação era a maior herança que podia deixar aos descendentes, pois é uma riqueza que se encontra encerrada em cada um, intransponível e inacessível a qualquer intruso. É a única fortuna permanente que podemos ter. Agora ali, sentado em seu banco, de onde descortinamos a cidade lá embaixo, o velho amigo sorve os seus momentos de velhice conversando e orientando as pessoas que o procuram para ouvir um conselho; e elas são muitas. Para cada uma delas uma palavra lúcida de coragem e orientação buscando sempre a melhor solução para cada problema, sempre baseada na coragem, no trabalho e na fé em Deus. Muitas vezes o procurei para ouvir seus conselhos e muitas vezes encontrei com ele os estímulos que me fizeram ficar de pé e vencer minhas batalhas. Pretendi homenageá-lo uma vez publicamente, mas não aceitou pedindo que, ao contrário, empregasse todo o meu conhecimento e esforço em prol dos menos favorecidos. Tenho procurado fazer isto.


Hoje pela manhã soube que o velho amigo nos deixou. Partiu com a mesma tranquilidade e mesma coragem que teve durante sua rica existência. Aos 97 anos deixou em nossos corações não só a saudade, mas, principalmente, as melhores lições de força, trabalho, humildade e fé.


(*) O autor é médico e membro da Academia Venceslauense de Letras

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