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De médico e louco…

Atualizado: 20 de jun. de 2023



Machado de Assis é sem dúvida um dos maiores escritores brasileiros, senão o mais festejado. Autor do Realismo brasileiro é dono de um texto elegante, sem exageros linguísticos, descritivo na medida certa e, principalmente, um severo crítico do comportamento humano.


Sua ironia, nem sempre sutil, sua capacidade de desnudar a alma e os sentimentos humanos sem verborragia, fazem de suas produções textos elegantes, sóbrios, detalhistas sem cansar; um texto para ler até terminar e ao final, ostentar um sorriso orgulhoso significando “entendi e concordo”!Um autor negro contemporâneo da escravidão, pobre, autodidata, epilético e gago; hoje, talvez, não descesse do morro, onde morava para uma Cadeira na Academia Brasileira de Letras, que ajudou a fundar. Seus romances, da fase romântica ou da fase realista, esta sem dúvida, a melhor, e seus contos não têm similar. Sua correção gramatical, sua frase elegante e bem articulada, seu vocabulário seleto, fizeram dele um legítimo representante da língua portuguesa clara e bem-posta. Sólido alicerce para a perpetuação de nosso idioma pátrio.


Reli há pouco seu conto “O alienista”, um dos mais conhecidos. Um clássico.


É a história de Simão Bacamarte, personagem ilustre da cidade de Itaguaí, Rio de Janeiro. Um homem da ciência, um médico cuja única e sincera vocação é a prática científica, que dedicou longo tempo de sua vida ao estudo das moléstias mentais.Essa dedicação culminou com a fundação da Casa Verde, o hospício de Itaguaí, propondo-se a estudar a mente dos desajustados da cidade, dos desequilibrados das faculdades mentais e claro, tentar curá-los de sua condição.


Desde muito jovem, Bacamarte demonstrou sua serenidade, sua frieza, sua crua observação do ser humano, enfim, um intelectual, um sujeito bastante diferente. A Casa Verde foi fundada como instituição pública, com a total aprovação da Câmara de Vereadores de Itaguaí. Mas como custear a instituição se o povo já era vítima de impostos absurdos? A solução foi ridícula; criaram-se impostos ridículos através de cálculos não menos ridículos. A princípio, Simão teve o apoio de todos, mas com o tempo percebeu-se que havia algum equívoco já que a maior parte da população de Itaguaí estava enclausurada na Casa Verde.


Como explicar tantos desequilibrados mentais? Estaria Simão só interessado nos lucros? Ou sua obsessão científica levou-o longe demais? Ou recolhera à Casa Verde todos os seus desafetos?


Algum tempo depois, ele passa a internar pessoas consideradas sãs, como Costa, um rapaz que havia recebido uma herança com a qual viveria até o fim da vida, mas gastou tudo em empréstimos aos outros e acabou na miséria. D. Evarista foi internada por não conseguir decidir que roupa vestir para uma festa. Quando metade da população já estava internada as pessoas começaram a se revoltar. O barbeiro Porfírio decide liderar uma revolta para soltar as pessoas que foram presas injustamente; ao final, os manifestantes também acabaram internados.


Entretanto, quando a população internada atingiu 75% dos habitantes da cidade, Simão Bacamarte percebeu que havia algo de errado em seu critério e decidiu revê-lo: se a maioria seguia um desvio de padrão, quem tinha regularidade em suas ações e firmeza de caráter eram os verdadeiros loucos. Então ele decidiu que a minoria é que deveria ser internada.Estranhamente, não encontrou ninguém que possuísse um desvio de caráter contrário à maioria, a não ser ele mesmo. Simão Bacamarte, então, se internou e ficou sozinho na Casa Verde, falecendo dezessete meses depois.


O Alienista é uma obra de leitura gostosa, cheia de humor e de grandes surpresas. No entanto, serve para uma reflexão significativa: quem são os loucos e quem são os saudáveis em nossa sociedade? Quem está certo e quem está errado na rotina da vida? O que vale mais a sensatez, o autocontrole, a solidariedade, o esforço pessoal, a honestidade? Ou valem a ousadia, o desrespeito, a desconsideração, o deboche, a desonestidade, a falcatrua…


Lembro-me de um querido médico que, alicerçado em sua longa experiência profissional, disse-me um dia: Não sabemos, mas convivemos diariamente com os mais variados níveis de loucura. “Não ligue, ele é assim mesmo.” “Ah, tem uma personalidade forte!” “Ele sempre foi irredutível, doa a quem doer!” “É um excêntrico, mas…”


‘De médico e louco, todo mundo tem um pouco.’ (Ditado português)


(*) Aldora Maia Veríssimo – Presidente da AVL

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