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Em Pauta: Ídolos da nossa MPB estão indo embora


A morte de Rita Lee, nesta terça-feira (09), causou enorme tristeza aos fãs e admiradores de seu trabalho artístico.


A paulistana Rita, irreverente desde os tempos de Os Mutantes, quando fazia trio com os irmãos Arnaldo e Sérgio Baptista nos anos 60 e inicio dos anos 70, reverenciou-se anos depois como a “Rainha do Rock” no Brasil.


Antes da carreira solo, Rita ainda produziu trabalho com o grupo Fruto Proibido, até conhecer Roberto de Carvalho, como quem viveu seus últimos anos e com o qual compôs diversas canções que se tornaram sucesso, principalmente nas décadas de 80/90 e início dos anos 2000.


Não só a música Rita deixa como legado, composições das mais variadas; eterniza também sua irreverência, no palco e fora dele. Era direta e reta. Não tinha meio termo. Era atriz de si mesma. Uma planetária fora do contexto à realidade trivial desse mundo soberbo e cheio de inconvenientes. Rita, a ovelha negra singular do "anti-politicamente-correto”, com verve sagaz, fará muita falta nesse universo careta.


Nossos ídolos estão indo embora, assim como Rita partiu da vida terrena, “viajou fora do combinado” [célebre frase de Rolando Boldrin que também nos deixou] Luiz Melodia, Gal Costa, Erasmo Carlos, cantores e compositores que marcaram minha vida musical.


Nasci na década de 60 e cresci aprendendo a ouvir música brasileira de qualidade. Um tempo em que as composições, além da qualidade melódica, tinham conteúdo verbal de alto nível, uma estética com significados diversos sobre amores, ilusões, desejos, ou mesmo contestação sobre o mundo e suas peculiaridades.


Malgrado das coisas que se produzem hoje no Brasil em termos musicais, era um tempo de construção, de reparos, vivência sobre o belo, através de acordes dissonantes, às vezes incompreendidos aos ouvidos mal-acostumados.


O brega sempre existiu e existirá. Não há nada a contestar sobre esse padrão ora apreciado. No entanto, há que se reconhecer que a qualidade harmônica aliada à capacidade poética das canções remontam gerações pretéritas. O que diria Noel Rosa ou mesmo Pixinguinha sobre os tais "sertanejos universitários"?


Como contextualizar esses "novos artistas" que movimentam milhões nos shows em rodeios e exposições, com comportamentos ultrajantes que nada contribuem para formação cultural brasileira?


A indústria do entretenimento, que um dia foi chamada de "cultural", cada vez mais ávida pelo lucro, expõe o quão o Brasil precisa rever conceitos e padrões por não valorizar o que de fato é cultura.


A diversidade cultural sempre existiu, mas ainda permeia restrita aos seus locais de origem. Quiçá, com o mundo digital, possa se expandir para outros rincões. O universo online é vastíssimo para tantos cliques, porém teleguiados pelos algorítimos das big techs.


É difícil imaginar que um dia seremos um país em que a cultura seja reconhecida e valorizada, até porque os parcos recursos orçamentários nas três esferas de governo são pífios diante da necessidade.


A tristeza pela morte de Rita, Gal, Erasmo e tantos ídolos da nossa música é imensurável. Ficam a saudade e o legado de suas obras.

Mas, em tempo, "é preciso se livrar dessa vida vulgar"...

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