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História de pescador


Nunca, que me lembre, pesquei na vida. Na verdade sequer sei colocar a isca no anzol, mas convivo com muitos parentes e grandes amigos que são pescadores convictos e verdadeiros mestres na arte. Meu cunhado, por exemplo, tem enorme material próprio para uma boa pescaria, desde molinetes, linhas, vários tipos de anzóis e varas até locais para acondicionar o pescado, camisas próprias para o pescador e vários tipos de bonés e chapéus que usa quando pratica o esporte. Sim, porque agora ele pratica a “pesca esportiva”, ou seja, depois de fisgar o peixe o devolve para a água. Apenas o prazer da pescaria é que faz com que toda semana ele se dirija para o rio. Tenho também um amigo que todo ano tira 15 dias de sua atividade médica e vai para o rio Paraguai, embarca num barco com toda a mordomia (até ar condicionado tem) e passa os dias pescando. Diz ele que volta renovado para o trabalho.

Evidentemente, como todos sabemos, onde se reúne pescadores temos histórias de pescaria. Embora nunca tenha realmente pescado sempre participei, desde a infância, de reuniões de grupos de pessoas adeptos desta atividade e, como é comum, todos tem suas historias ligadas a ela e exageros acontecem quer acreditemos ou não. Orlando por exemplo me contou que no Miranda pescou um pintado de quase 200 kilos tendo levado quase o dia todo para tirar o bicho da água e Alfredo jurou uma vez que estava pescando e, de repente, um dourado saltou do rio tão alto que ao cair se alojou certinho na caixa com gelo onde guardava os pescados, ou seja, o próprio peixe se pescou...

Quando menino corria à casa do tio Antônio quando ele chegava da pescaria que sempre fazia com um punhado de amigos; adorava ouvir suas estórias. O grupo se reunia a noite, após o jantar, e entre uma cerveja e outra sempre tinha casos para contar. Naquela noite estavam sorridentes e festejavam o sucesso da atividade. Começaram então a contar o que acontecera e tio Antônio narrou que num dos dias pela madrugada saiu do rancho para visitar os espinhéis e as armadilhas para verificar se algum peixe havia sido fisgado. Era uma noite escura, lua minguante e poucas estrelas no céu. Fazia frio e ele usava uma japona e carregava na mão uma lanterna muito boa. Desceu pelo” trilheiro” até a margem do Pardo e caminhou por ali em direção ao barranco do rio. Algumas capivaras correram à sua passagem e ao chegar à margem encontrou sentado numa pedra um senhorzinho de cerca de 70 anos. Cumprimentou-o por educação e “correu” as armadilhas. Nada encontrou e ao voltar iluminou o rosto do velho que estava meio escondido sob um capuz. Sentou-se ao seu lado disposto a conversar. Perguntou-lhe se estava só e o homem assentiu. Se vinha ali sempre e ele respondeu “todos os dias”. Então tio Antõnio que olhava a noite e a escuridão de breu, que sentia um friozinho na coluna perguntou ao velhinho : “ e o senhor não sente medo”? A resposta veio de imediato com uma voz que ecoou por entre as árvores do lugar :” sentia quando era vivo”! O tio saiu correndo esbaforido em direção ao rancho, deixou cair a lanterna e quase tropeçou numa capivara; chegando lá, taquicárdico e aos gritos, acordou os companheiros que desceram correndo para a margem do Pardo. Vasculharam tudo e nada encontraram, nem a lanterna que ele perdera. Disseram que estava bêbado e voltaram a dormir. Só titio não dormiu mais e contava sempre esta historia até o dia que partiu. Acredite se quiser...


(*) O autor é médico e membro da Academia Venceslauense de Letras

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