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Ipês floridos


Final de agosto, primeiros dias de setembro, surge de forma súbita a florada dos Ipês. Todos os anos isto acontece no finalzinho do inverno como se fosse a primeira notícia da nova estação que se aproxima, arautos da primavera. Por onde andamos, espalhados pela cidade, vejo os Ipês amarelos, os mais comuns, os rosas e os brancos. Às vezes em árvores pequenas, outras em gigantescas, sempre enchem de beleza o ambiente que enfeitam mostrando que a natureza continua a nos brindar com suas maravilhas! Tenho um no caminho de meu trabalho. Ainda ontem estava vazio e agora, ao passar, o vejo cheio de flores amarelas que cobrem toda sua copa e brilham, com o reflexo do sol, como se fossem pepitas de ouro.


Tiro uma foto com meu celular e a encaminho para os amigos com o meu “bom dia” na esperança de que todos possam mesmo ter um dia pleno de realizações e alegrias. Sei muito bem que a florada do Ipê é rápida. Três ou quatro dias após surgirem as flores começam a cair e formam tapetes pelo chão que pisamos. Mas durante estes dias inundam nossos olhos e nossos corações de beleza e paz.


Isto me faz lembrar de Curitiba, cidade onde estudei medicina. Lá existem várias ruas com Ipês em suas calçadas e as floradas ocorrem ao mesmo tempo. São ipês amarelos e a cor das flores são de uma beleza tão intensa, tão inebriante que nos emocionam e mostram como a vida é bela. O brilho ouro do amarelo cobrem a nossa retina como um vendaval. Nesta época gostava de passear pelas ruas para ver de perto a florada dos ipês. Havia um professor mais velho que nos acompanhava no passeio e nos mostrava a magnitude da natureza. Dos ipês brancos caiam as flores como flocos de neve e dos amarelos as “pepitas de ouro” e o velho mestre nos falava da continuidade da vida. Vivíamos a floração dos ipês como uma homenagem à vida que se repete e ressurge sempre e embora fugaz deve ser vivida com intensidade. Dura muito pouco a floração dos ipês, três ou quatro dias, mas a intensidade de sua beleza mostra que mesmo rápida nossas vidas devem ser intensas para valerem a pena. Recebo dos amigos muitas fotos de árvores floridas por todo canto de nosso país mostrando que, como aqui, em todos os lugares a mensagem da beleza, da poesia e da paz que Deus nos envia através destas flores nos ensinam que a vida é maravilhosa em todas as suas manifestações mesmo nas mais pequenas e que devemos enxergar Suas dádivas em tudo.


O velho mestre faleceu mas até a formatura todos os anos íamos caminhar pelas alamedas dos ipês para ver o manto dourado que a natureza nos ofertava! E agora, quase cinquenta anos depois, no final de agosto quando subitamente as flores aparecem na copa destas árvores o meu coração fica repleto de saudade e eu agradeço a Deus a ventura de, por mais um ano, ver e sentir a vida se refazer para começar um novo ciclo.


Caminho então pelo tapete amarelo que formam as flores ao cair em oração muda e intensa com a esperança de que, com a chegada da primavera, possamos viver ainda mais e melhor! E no ano que vem que Deus nos permita assistir novamente a grandiosidade de sua benção na incomparável beleza da simplicidade das pequeninas flores.


(*) O autor é médico e membro da Academia Venceslauense de Letras

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