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Mais uma história de amor

Atualizado: 20 de jun. de 2023



Sempre gostei de histórias de amor, como a maioria das mulheres; aquelas em que o amor vence todas as barreiras, são as melhores. Na minha adolescência acompanhei, de longe, uma história que amei conhecer. Minha mãe não gostava do meu interesse por essa história, particularmente, mas respeitava meu apreço.


Ela morava no quarteirão próximo à minha casa. Residência bastante humilde. Estava sempre só. Eu a imaginava solitária, até o dia em que percebi que recebia visitas diariamente. As visitas aconteciam pela tarde. Era difícil vermos quem a visitava, mas sabíamos que vinham em charretes, um “veículo” comum na época, ou a cavalo, o qual ficava atrelado à árvore que havia em frente à casa, sempre fechada e que mantinha apenas a janela da cozinha aberta, que dava para o quintal.


Francisca era o seu nome, chamada pelas vizinhas Dona Chiquinha. Era miúda, pele clara, com marcas de sol, magra e há muito as benesses da juventude a haviam abandonado. Calada. Não conversava com vizinhas, apenas o estritamente necessário. Chamava-me a atenção seu batom sempre muito vermelho colorindo-lhe a boca, unhas esmaltadas e saltos muito altos. Há que se lembrar que não havia calçadas no bairro e ela, como nós, só andava a pé.


Os meninos e meninas mais travessos tentavam descobrir a rotina da casa: havia sempre uma música alegre, mas muito baixinha. Acredito que para preencher a solidão dessa vizinha arredia.


Sabíamos que ela estaria com visitas toda vez que a janela da cozinha estivesse fechada. Aí então o volume da música aumentava e muito!


A vizinhança só a via em dias aleatórios. Ouvíamos o apito do trem, insistente, e Dona Chiquinha corria até a rua e acenava com ambas as mãos, gritando: “Vai com Deus! Volte logo!” O alvo dessa manifestação era o maquinista do trem das 14 horas com destino a São Paulo. O apito soava repetidamente e Chiquinha voltava para dentro de casa, feliz, certamente.


Quando o maquinista amado vinha visitá-la, chegava de charrete, carregado de pacotes; víveres e presentes, imaginávamos. E o ritual se repetia, fechava-se a janela da cozinha, o volume da música aumentava e não víamos Dona Chiquinha durante os vários dias de folga de seu amado.


Nas semanas seguintes, tudo recomeçava: visitas diárias ao som de música alta, os acenos para o trem cujo apito repetitivo gritava ao mundo o amor do maquinista e sua musa.


Família? Dizem que Dona Chiquinha tinha um casal de filhos, mas ninguém os conhecia, nunca visitaram a mãe e não se incomodavam com sua vida ou bem-estar. Apesar dessas atitudes particulares, a curiosidade dos meninos e meninas foram cessando e todos os vizinhos passaram a respeitar sua vida e seu comportamento, já que não incomodava nem ofendia ninguém. Apenas vivia e deixava viver.


Como éramos cinco irmãs e na época havia por parte dos pais uma grande preocupação com o “bom encaminhamento” das meninas ao casamento, minha mãe sempre nos exigiu respeito pelas escolhas de Dona Chiquinha. “Não sabemos quais são suas dores, quais foram seus caminhos, quantos e a causa de seus tropeços, então, respeito é o que ela merece.”


Passamos nossa adolescência acompanhando, de longe, a vida de Francisca; não nos importavam os detalhes, o que nos saltava aos olhos e enternecia nosso coração ingênuo era a sua história de amor.


O tempo passou, nossos interesses foram se diversificando, mudamos o foco e um belo dia vimos um caminhão chegando cheio de móveis; uma nova família moraria naquela casa e nem sequer vimos quando Dona Chiquinha se mudara. E a vida seguiu seu curso.


“Está decretado: o único amor proibido é o amor não correspondido!” (Autor anônimo)


(*) Aldora Maia Veríssimo – Presidente da AVL 

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