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Medo! Quem não tem?


O medo é um dos quatro gigantes da alma! Ele define as nossas estratégias de vida e, graças a ele, a humanidade se estruturou e sobreviveu até os dias de hoje. Em virtude do medo nos agrupamos, fomos procurar abrigo nas cavernas, construímos armas para combater os animais, os inimigos e, com medo de morrer, estudamos e descobrimos medicamentos e procedimentos para salvar vidas.


Passei por estes dias na praça prefeito Miguel Brizola, conhecida por praça do bosque, ali na esquina do supermercado e lembrei-me do passado. Antes, quando eu era jovem, ali existia um bosque com muitas árvores nativas, algumas de grande porte, de forma que as pessoas que moravam na Vila Carmem e adjacências fizeram um trilheiro para cortar caminho por dentro da matinha e acessar o centro da cidade. Eu namorava uma menina que residia nos altos da vila e, assim, ia vê-la nos finais de semana. Depois do cinema a acompanhava até sua casa e ficava no portão conversando (naquela época namoro era só no portão) até seu pai, que ficava no quarto da frente, tossir que era o sinal para eu ir embora. Isto ocorria por volta das 22 horas. Naquele sábado o velho demorou para dar o sinal e eu deixei a garota por volta da meia noite e retornei para casa pois morava bem no centro da cidade. Para isso tive que atravessar o bosque que, diziam, era assombrado...Ainda eufórico pelos beijinhos entrei na trilha sem preocupações mas quando estava na metade do caminho ouvi passos lépidos atrás de mim. O coração gelou e começou a bater muito rápido, a boca ficou seca e os olhos arregalados. Olhei para trás e nada vi. Os passos pararam. Continuei a caminhar, então mais rápido, novamente os passos voltaram “lec, lec, lec” atrás de mim. “Meu Deus” pensei! “É uma alma penada que está me acompanhando” ... Olhei por cima dos ombros e nada. Acelerei mais os passos e “ela” acelerava também. Comecei a orar, a princípio só com os lábios e depois em voz alta mas os passos foram chegando cada vez mais próximos de mim. No meio do bosque me dei por vencido e parei trêmulo virando lentamente o corpo para me entregar...Quase caí com o “bééé” que ouvi. Bem próxima de mim uma cabrita preta com olhar amigo me fitava e balia. Naquela época era comum as pessoas criarem no quintal cabras que davam leite e carne para a alimentação e, às vezes, o animalzinho ficava solto pelos descampados que existiam por ali para pastar a vontade sendo recolhidos pela manhã para a ordenha e a ração. Que susto! Que medo!


Dizia no início do texto que o medo é importante. Afirmo isto novamente. Graças ao medo não cometemos loucuras, não exageramos em nossas ações, respeitamos as leis e temos precauções quanto à nossa vida. Se temos dor sentimos medo e procuramos o médico para nos tratar, se saímos numa grande cidade evitamos ruas escuras com medo de assaltos e ninguém vai se pendurar da janela do prédio com medo de cair. Apesar de ser nossa única certeza desde que nascemos temos medo da morte e fazemos tudo para não encontrá-la. O medo em si não é negativo, acompanha nossa evolução e garante nossa sobrevivência!


No entanto temos que diferenciar este medo do qual estamos falando do medo descomunal, do que chamamos “fobia”. Um medo extremamente exagerado que atrapalha nossa vida e que necessita de tratamento. Por exemplo, o medo exagerado de cobras, a ofídio fobia, que impede que a pessoa possa falar sobre elas, o medo exagerado de baratas, do escuro, de sair à rua, de conhecer pessoas, de lugares fechados e até de alturas. A fobia impede que nossa vida siga seu ritmo normal e isto pode ser muito grave. O médico especialista deve ser procurado e o tratamento é extremamente necessário!

Enfim, todos nós temos medos! Você leitor, tem algum?


(*) O autor é médico e membro da Academia Venceslauense de Letras

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