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Meu amigo grego


Sempre soube que o cão é o melhor amigo do homem; tem por ele um amor extraordinário e desinteressado. Fiel ao seu dono e companheiro demonstra esta afeição profunda estando sempre ao seu lado, em qualquer momento de suas vidas. Já vimos cães na porta de hospitais aguardando a saída de seu amigo por dias sem arredar pé daquele local, já soube de cães que não sobrevivem quando seu tutor lhes falta. Mesmo quando agredido ele é capaz de um perdão absoluto e vem lamber a mão daquele que acabou de lhe maltratar. Os mongóis davam importância extrema a seus cães e quem ler Gengis Khan verá que os cachorros tinham lugar especial nas suas tendas e seus corações. Não precisamos ir tão longe, hoje os cães de estimação são considerados membros da família e tem tratamento diferenciado dentro de casa. Este animalzinho nos concedido por Deus é capaz de dirigir os passos de um cego, trata de pessoas depressivas, mitiga a solidão de tantos idosos, anima e transforma para o bem nossas crianças e é capaz de transformar nossas vidas!


Quando criança tive vários cães que fizeram parte de meus folguedos e muitos deles marcaram nossa meninice mas teve um que conheci lá em Curitiba quando estava no quarto ano da faculdade que marcou minha vida se tornando inesquecível. Lembro-me que estava entrando no restaurante universitário onde fazíamos nossas refeições a preços módicos quando o vi pela primeira vez. Era um animal de médio porte, malhado de branco e amarelo, vira lata típico que com seu olhar súplice parecia me pedir um pouco de atenção...Na porta do refeitório o movimento era enorme e quase ninguém o tinha percebido mas seus olhos me tocaram o coração. Entrei no salão, peguei na mesa uma “vina” (salsicha) e fui lhe entregar lá fora. O cão com delicadeza comeu o alimento e veio me lamber a mão estendida. Chamei-o “Grego” já que lia na época os clássicos da Grécia e um amigo que almoçava comigo me disse que cão era um presente “de grego’.


Todos os dias encontrava o Grego na porta do restaurante. No meio das centenas de jovens que entravam e saiam do local o meu amigo me localizava e vinha humildemente me cumprimentar me lambendo a mão. Falei com a Marlene, garçonete do local, para todos os dias, depois que o restaurante fechasse, fornecesse ao cão um prato dos restos de comida e dava uma gorjeta a ela por isto. Assim foi feito e o animal, com certeza, sabia que era eu que lhe providenciava sua refeição. Quando deixava o refeitório e atravessava a praça Rui Barbosa em direção à Santa Casa Grego me seguia e parava na porta do hospital até eu desaparecer dentro do nosocômio. Um dia o restaurante permaneceu fechado e levei o cão para o local em que morava, um pequeno apartamento na garagem de um prédio. Ali enquanto estudava para as provas o amigo permanecia deitado aos meus pés no mais absoluto silêncio. Tenho aqui comigo que ele sabia que isto era extremamente necessário. Grego não permaneceu no apartamento porque o regimento do condomínio não permitia mas ficamos assim, amigos, e eu queria vê-lo todos os dias.


Numa manhã de segunda feira ao chegar ao restaurante não encontrei o animal. Apressado, com estágio a tarde, com provas no dia seguinte, não dei importância à falta do companheiro. Mas no dia seguinte não o encontrando novamente tive uma enorme apreensão e uma dor grande no coração. Procurei por Marlene mas me informaram que ela não estava vindo há alguns dias. Desesperado comecei a perguntar a todos sobre o cachorro mas ninguém sabia informar seu paradeiro. Procurei o amigo por todos os lugares e não o encontrei. A noite, em casa, sozinho, chorei aquela perda como se tivesse perdido um grande amigo e tive uma noite de insônia e pesadelos. Com certeza Grego havia morrido debaixo das rodas de um coletivo que trafegava em torno da faculdade. Para mim que morava sozinho e sentia enorme solidão longe de casa aquele ano havia terminado em enorme tristeza. Em estado de luto fui para a faculdade e quase não consegui assimilar o que o mestre ensinava. No intervalo fui tomar um café na cantina e seu José, que conhecia a minha alegria e espontaneidade, me perguntou se estava doente; lhe contei, com lágrimas nos olhos, a perda do amigo Grego. Então o bom homem me contou que vira Marlene entrando com um cãozinho em um táxi e que talvez pudesse ser o meu cão. Saí correndo, o coração taquicárdico, a boca seca, perguntei pelo endereço da garçonete, faltei as demais aulas do dia, peguei um táxi e parti para a periferia e lá, no bairro do Pinheirinho, na casa de Marlene encontrei o meu amigo! Grego veio me cumprimentar “beijando” minha mão e a minha alegria foi tão imensa que caí de joelhos agradecendo a Deus por isto. Os anos transcorreram céleres e após minha formatura, antes de deixar Curitiba, fui me despedir do Grego que permaneceu no portão até que desapareci na distância da rua movimentada. Deixei bem um grande amigo que me fez companhia quando eu precisei e que mostrou a mim que os verdadeiros amigos são para sempre! Os cães assim o são.


(*) O autor é médico e membro da Academia Venceslauense de Letras.

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