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Nós e os primatas


O primatólogo holandês Frans de Waal, decano da especialidade e autor do livro “Eu, Primata” passou anos e anos observando a vida dos chimpanzés no zoológico de Arnhem nos Países Baixos e nos traz informações sobre os macacos que se assemelham muito à atividade humana, em especial à política que praticamos. Não sei se o amigo sabe, mas estudos científicos nos informam que a distância entre os chimpanzés e os humanos geneticamente não para de diminuir estando reduzida a 1,6% do DNA. Como se isto não bastasse, junto a este índice de 98,4% do genoma, abriu-se a última porta desta fronteira, a do cérebro: cientistas brasileiros anunciaram há pouco, mundialmente, que a contagem dos neurônios dos símios corresponde à metade dos neurônios de um ser humano adulto ou igual à de uma criança de dois anos. Assim uma comparação como esta é perfeitamente factível.


O ex-senador Jarbas Vasconcelos, dizia sobre os políticos que “querem o poder para fazer negócios e ganhar comissões”. Incrível, entre os macacos isto também ocorre, ou seja, os mais poderosos usam o poder para levar vantagens quer no que diz respeito aos alimentos quer quanto às práticas para a procriação atividades essenciais à espécie. Nepotismo, abuso de autoridade, traição, rasteiras, golpes, blefes, coalizões e trapaças são comuns entre eles. Costumam ser manipuladores e arbitrários e os chefes andam com o dorso eriçado simulando passos de lutadores para dar a impressão de serem maiores e mais fortes que a macacada plebéia; essa ,por sua vez, não se cansa de adulá-los em rituais de obediência que incluem o beija-mão e, melhor ainda,o beija-pé.Aliás curvar-se diante do chefe é coisa de chimpanzé. As brigas entre os símios raramente passam de um exercício que serve para reiterar e reforçar a unidade do grupo: quando dois macacos chefes brigam os demais tomam partido e todos fazem um grande alarido como se estivessem prontos para se destroçar, mas tudo acaba em “pizza” e pouco tempo depois da crise os líderes já estão se abraçando e se penteando um ao outro. Exatamente como com os políticos os chefes fazem favores aos seus súditos para permanecer no poder e a plebe bajula os chefes porque assim têm acesso às bananas e às fêmeas num verdadeiro clientelismo. Será que isto acontece entre nós humanos?


Mas voltemos à ciência. Sabemos hoje que a visão é uma afinidade concreta entre o homem e o macaco: ambos enxergam em cores que é uma atribuição rara entre os mamíferos. Assim a visão colorida é um trunfo para quem come frutas porque ajuda a evitar as verdes e encontrar as maduras, mas também é fundamental para a análise das emoções que, como sabemos, se espelham no olhar. Segundo Frans de Waal se conhece profundamente as emoções dos chimpanzés entendendo seu olhar. E de nós humanos o nosso olhar traduz amor, paixão, ira, inveja, gratidão, ou não? Logico que ainda vamos avançar muito em nossos conhecimentos, mas não podemos olvidar que, em muitos aspectos, nos assemelhamos aos primatas. A vida dá demonstração cabal disto.


(*) O autor é médico e membro da Academia Venceslauense de Letras

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