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Em Pauta: Nas ondas do rádio

Atualizado: 18 de jul. de 2023


O rádio, na minha adolescência e juventude, era um deleite diuturno. Nos anos 60 e 70 ainda não havia as FMs por aqui. O que se tinha eram as estações de ondas médias e curtas, principalmente. Percorrer o ‘dia’ para encontrar a estação pretendida se constituía numa aventura instigante.


Enquanto a televisão, com seus programas de auditório - Flávio Cavalcanti, Silvio Santos, Chacrinha -, fazia sucesso, as rádios se mantinham com muita criatividade, muita música e informação de qualidade.


Era comum ouvir, principalmente nos finais de tarde, comentários sobre economia feitos por Joelmir Betting, o “Cantinho da Saudade” protagonizado por Fiori Gigliotti, os ensinamentos musicais de Fausto Canova, Big Boy e sua beatlemania, o Trabuco, Omar Cardoso e suas previsões astrológicas, entre tantas outras locuções.


O que chamava atenção era o repertório musical de então. Não era fã de Roberto Carlos, mas suas músicas dominavam as programações. Peguei o final do movimento “Jovem Guarda”, fase em que a Ditadura Militar valorizava o gosto fácil e perseguia Chico, Caetano e Gil, principalmente. Vi surgir o “Tropicalismo”, nos anos 70, movimento que revolucionou a música brasileira. Também curti a fase final da bossa nova, apreciando João Gilberto, Tom Jobim e, principalmente, Vinícius de Moraes.


Era uma época em que se fazia serenata, cantando, entre outras coisas, “Eu sei que vou te amar”, com muitas rodas de violão, tocando Toquinho e Vinícius e sua “Tarde em Itapuã”, entre outras pérolas da nossa MPB. Não faltavam também os mais populares de bom gosto, como Benito de Paula, principalmente, e seus sambas feitos ao piano.


Hoje, inexplicavelmente, a maioria das emissoras tocam músicas de gosto duvidoso, onde o som e a melodia deram lugar ao barulho, com letras fúteis e sem nexo, ceifando, literalmente, a poesia e a letra de conteúdo.


Paralelo a esse declínio, grande parte das emissoras deixaram de fazer jornalismo. São poucas que mantém equipes e muitas delas entregaram boa parte de sua programação para igrejas pentecostais.


Ressalta-se também que as plataformas digitais na Web contribuíram para a redução do número de ouvintes do “dial”.


Para não perder ainda mais o público-ouvinte, as emissoras têm recorrido a utilizar a plataforma do youtube e, desta forma, transmitir sua programação. Mesmo nas transmissões esportivas, esse expediente tem sido recorrente. As equipes não se deslocam mais para os estádios e optam a ficar no estúdio, narrando o jogo a partir de imagens fornecidas pela televisão.


São os novos tempos da era digital. Se por um lado, alcança o mundo inteiro, por outro fragmenta a audiência e reduz o conteúdo.


Agora, a nova onda são os podcast, que é um arquivo digital de áudio transmitido através da internet, cujo conteúdo pode ser variado, normalmente com o propósito de transmitir informações. E qualquer usuário na internet pode criar um podcast.


Mas, confesso, tenho saudade do radinho de pilha à beira da cama, do “chiadinho” das estações se confundindo no “dial”, mas principalmente do tempo em que ouvir rádio era um aprendizado prazeroso e cultural.


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