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O Amor Fati


Não sei se acontece contigo. Acredito que sim... Há dias em que ao acordarmos ficamos ali na cama e parece que o melhor mesmo seria continuarmos a dormir. Lembramos que a semana está iniciando, segunda feira, e sentimos que ela será tão difícil quanto a que passou. Quanto trabalho: a cirurgia que deverá ser extremamente complicada, as queixas das pessoas, a dificuldade para pagarmos as contas, a saúde de entes queridos que não caminha bem, o falecimento do grande amigo que partiu sem sequer se despedir, o aumento absurdo do preço das coisas, o receio de que o país enverede por um caminho sem volta e, principalmente, aquela sensação de impotência que nos faz imaginar que tudo será extremamente complicado. Ouvimos lá fora o barulho da chuva e, pela janela, observamos o céu cinzento e acabrunhado como se a confirmar conosco o pensamento pessimista. Mas, aos poucos, vamos arrancando do mais profundo de nossa alma a força que vai fazer com que nos levantemos para enfrentar um novo dia! O banho morno no chuveiro e o som suave de uma música ao longe nos traz de volta à realidade e, por mais difícil que ela seja, a encaramos com uma disposição que aos poucos estava muito distante de nós. As nossas orações a Deus Pai mitigam nossos pensamentos ruins e, assim, logo estamos dando conta de mais um dia de nossa existência...


Todos vivemos momentos difíceis na vida e também momentos de enorme alegria, momentos de derrotas e de grandes vitorias e conquistas; todos cometemos enormes falhas e também acertos pois, afinal, somos humanos e frágeis quanto ao que nos atinge. Gostaríamos que nossa existência fosse só de venturas e alegrias mas temos que suportar os males que nos incomodam, as inseguranças que se instalam em nosso íntimo e a certeza que, embora nossas perspectivas sejam muitas, não poderemos realizar tudo o que planejamos, que sonhamos, porque a vida é rápida, é chama que se apaga de repente e esta certeza que tentamos ocultar no nosso subconsciente cada vez mais se torna quase palpável a medida que envelhecemos. Procuramos então achar culpados para tudo: a culpa foi da impossibilidade de um estudo melhor, foi de morar numa cidade tão pequena que não nos abriu portas, a culpa foi do medico que não descobriu rapidamente nossa doença, é do governo que sobretaxa nossos impostos, todos são culpados mas não olhamos para nosso intimo para ver que ela, a culpa, está exatamente dentro de nos.


Há no entanto uma solução. O Amor! Lógico: o amor que sentimos pela pessoa que escolhemos para companheira, o amor fraterno que temos por nossos irmãos e por nossos amigos, o profundo que temos por nossos filhos que, de alguma forma, perpetuam nossa existência, por nossos netos que retratam o grande bem que foi nosso viver, o amor pela natureza que nos brinda pela manhã com a luz do sol e a noite com o refulgir das estrelas nos céus, o amor pelo trabalho e principalmente a veneração e o amor que temos ao Criador de todas as coisas! Então surge em nosso pensamento e no coração o amor que os filósofos chamam de “Amor Fati”: o amor pela vida do jeito que ela se apresenta para cada um de nos: com grandes dificuldades que nos dão lições de humildade e perseverança, com enormes dores que nos mostram que somos frágeis e perecíveis, com conquistas que abrem para nos a possibilidade da caridade e principalmente a certeza de que só através deste amor conseguiremos deixar a marca de nossa passagem por esta terra. Assim, levantamos mais uma vez para enfrentar o novo dia com o amor fati transbordando de nossos corações.


(*) O autor é médico e membro da Academia Venceslauense de Letras

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