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O assunto é delicado, eu sei!

Atualizado: 20 de jun. de 2023



Sou uma senhorinha saudável; em minha já longa vida tive o privilégio de conhecer poucos médicos, por não ficar doente. Chazinhos, comprimidinhos, escalda-pés e benzimentos davam conta dos meus achaques. Mas, ainda me lembro dos nomes dos médicos mais famosos da minha infância e adolescência: Doutor Mendes, Doutor Cristóvão, Doutor Copertino e Doutor Tácito (o pai). Eram clínicos gerais, médicos de família, ou seja, atendiam todas as pessoas da família, desde pequenos até a maturidade. Iam até a residência dos pacientes. Sabiam tudo sobre as pessoas que atendiam; era como se tivessem um arquivo pessoal de cada doentinho. Pouquíssimos eram os exames solicitados, até porque não havia tecnologia para tal. A consulta, as perguntas, os sintomas eram objeto de uma leitura muito eficiente que direcionava o diagnóstico e a receita.


Atualmente, com a Saúde em crise devido a desmandos governamentais, vemos os profissionais de saúde diferentemente dos momentos anteriores. Estamos no momento das especialidades e os exames ganharam status. Cada médico é especialista em um problema e a maioria só diagnostica mediante uma bateria de exames. É a melhor maneira de praticar medicina? Há quem se contraponha a essa metodologia? Francamente, não sei.


Li em algum lugar que quanto mais a medicina evolui mais o paciente é “fatiado”. Temos o especialista em joelhos, o expert em ombros, o figurão na cardiologia, o melhor pneumologista, o melhor parteiro e assim por diante.


Vem-me à mente um médico maravilhoso que já perdemos: era clínico geral dos bons mas também era médico de almas. A interlocução que desenvolvia com cada paciente nos possibilitava abrir nossos sentimentos e nosso coração o que nos trazia um bem estar imenso. Medicava-nos, mas também nos aconselhava. E nos ajudava a enfrentar nossas angústias mais profundas.


Atualmente, para manter nossa saúde, temos que ter vários médicos em nossa agenda: mastologista, ginecologista, cardiologista, gastroenterologista, pneumologista e etc, etc, etc. Fala-se em implementar um prontuário eletrônico onde todas as ações médicas de cada pessoa seriam mantidas e ao alcance de todos os médicos. Isso facilitaria o acompanhamento dos pacientes e a elaboração do diagnóstico, e talvez diminuísse o número de exames solicitados.


Um amigo médico, muito respeitosamente, disse-me que em sua cidade não há mais bons plantonistas, daqueles de antigamente, que aguentavam galhardamente uma noite intensa no Pronto Socorro e que se dispunham a atender fosse qual fosse a necessidade. ‘Se chegar um acidentado grave será necessário convocar uma equipe para o atendimento das diversas peculiaridades.’ Os mais velhos, clínicos gerais, vão se aposentando e os  mais novos trabalham com especificidades.


Inserem-se nesse padrão os chamados “médicos de terno”. São os especialistas. Normalmente são jovens. Surpreendi-me quando um médico assim paramentado, ou seja, de terno, atendeu meu marido para fazer um exame de ‘ecocardiograma com dopler’. A princípio, achei estranho ele estar de terno; um terno escuro, com uma elegante gravata, parecia estar preparado para uma festa. Soube depois que pertence a essa nova categoria: o médico especialista que propõe exames e medica. Apesar da competência e conhecimento, não usar o jaleco branco, me pareceu fora de propósito. Enfim, é a modernidade na medicina! Dizem as más línguas que os laboratórios, que se multiplicam a olhos vistos, são incentivadores das especialidades.


Enfim, agradeço a Deus não ter necessitado de muitos cuidados médicos até então. Ressalto que sempre que necessário encontrei profissionais competentes, bem formados e humanos que corresponderam às minhas necessidades físicas e também, devo confessar, às minhas fragilidades emocionais e aos meus medos mais profundos. Assim como de meus familiares.


Sempre que me lembro do profissionalismo, rapidez e bondade como meu marido foi atendido há pouco tempo em processo de infarto, as lágrimas inundam meus olhos. O suporte que temos em Presidente Prudente é algo a se destacar.


Felizes somos nós, que morando em uma cidade pequena, numa região do interior, temos nos médicos, amigos irretocáveis, competentes, íntegros e dedicados. A esses profissionais, nossa gratidão.


‘Ao examinar a doença, ganhamos sabedoria sobre anatomia, fisiologia e biologia. Ao examinar a pessoa com doença, ganhamos a sabedoria sobre a vida” (Oliver Sacks).


(*) Aldora Maia Veríssimo – Presidente da AVL

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