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O cantinho só nosso


Acredito que em algum lugar do nosso cérebro, talvez nas circunvoluções da córtex, talvez no sistema límbico ou, quem sabe, nos núcleos da base, existe um lugar, um cantinho, que só pode e só é acessado por cada um de nós sendo inexpugnável às outras pessoas. Como disse não sei ao certo onde fica. Talvez um neurologista com muito mais conhecimento possa nos esclarecer. Mas uma coisa é certa, que existe ele existe! Neste local vamos acumulando, desde o momento em que dolorosamente rompemos o trajeto do parto e soltamos o primeiro grito necessário para o ar expandir nossos pulmões, nossos aprendizados, experiências, lembranças, características que moldam a nossa personalidade, formam o nosso “EU” e nos acompanham para o resto de nossas vidas. Aí estão estruturados o nosso caráter, a nossa agressividade, o nosso amor e guardadas a nossa memória, as nossas lembranças.


Assim, é desta fonte límpida que bebemos as nossas lições e aprendemos desde o sugar do seio materno, primeiro ato importante, até o raciocínio e o conhecimento que nos fazem ocupar o nosso espaço social, conquistar nossos objetivos e nos tornarmos vencedores (ou não) durante nossa vida que, como sabemos, é efêmera e na enorme maioria das vezes não chega aos cem anos. E é daí também que tiramos o sentimento do amor, o melhor dos sentimentos da espécie humana, o da gratidão, o da humildade e, porque não dizer, os pérfidos sentimentos da inveja, da ira, do ódio...


Agora, com o avançar da idade, tenho mais facilidades para acessar este meu cantinho e, parece que de maneira muito mais fácil, consigo analisar os meus atos, os meus aprendizados e os meus sentimentos. Percebo também que, como ocorre com todos, tenho aqui guardados meus sentimentos de raiva, de inveja, de ambição mas também de alegria, de carinho, de gratidão e de amor...Amor ao trabalho, à minha família, aos meus amigos, às pessoas com quem convivo, aos meus pacientes, aos milhares de bebês que vieram ao mundo pelas minhas mãos e a cada pequena conquista que fizeram de mim um ser humano. Acima de tudo trago deste meu cantinho só por mim frequentado o sentimento da fé, no homem, na vida e principalmente em Deus que me proporcionou esta existência e esta vida comunitária que me traz realização e felicidade!


A memória me traz lembranças de minha vida universitária, do meu casamento, do nascimento de meu filho e de minhas netas, das minhas realizações na vida pública, de minhas lágrimas de tristeza ao perder meus pais, um amigo, um paciente e de alegria ao receber em minhas mãos uma nova vida e ao experimentar o abraço de reconhecimento e gratidão de quem nasceu comigo e hoje exerce suas atividades bem aqui ao meu lado.


Tenho certeza amigo de que, como eu, você acessa o seu cantinho pessoal e indevassável, só frequentado por você. Tenho certeza que aí colhes também as lições e ensinamentos que estruturaram sua vida e as lembranças de tantas lutas, derrotas e vitórias que fizeram de você o que és hoje.


Nesta aventura, portanto, o que guardamos é o que aí está e que vamos levar conosco em nossa partida deixando como legado os nossos exemplos, enfim, exatamente o que nós construímos com trabalho, fé e amor!


(*) O autor é médico e membro da Academia Venceslauense de Letras

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