top of page
Buscar

O escritor e seu leitor

Atualizado: 21 de jun. de 2023



Em 25 de julho, comemora-se o Dia Nacional do Escritor. Esse dia foi escolhido pelo Ministro da Educação e Cultura Pedro Paulo Penido, em 1960, para homenagear escritoras e escritores brasileiros, durante a realização do 1º Festival do Escritor Brasileiro, patrocinado pela União Brasileira de Escritores (UBE), que ocorreu em 25 de julho.

No Brasil, há outras datas para comemorar a Literatura, a Leitura e outros temas afins. Sempre pensei que minha paixão por leitura e escrita fosse devida à minha formação: Graduação em Letras/Literatura e Especialização em Produção de Texto. Mas, pensando melhor, minha paixão deve-se ao pai que tive: um pai que veio de Portugal aos 18 anos e trouxe na bagagem várias obras da Literatura Portuguesa. Já lidas. E chegando ao Brasil, assim que pôde, adquiriu vários clássicos da Literatura Brasileira e também os leu. Quando no Curso de Letras eu comecei a ler os clássicos da Literatura, era com ele que eu discutia minhas dúvidas.


Meu pai era o que aprendi depois: um “leitor completo, leitor modelo”, conforme Umberto Eco: um leitor que se apossa do texto que lê, entende, complementa, ressignifica, enfim, é o leitor ideal para qualquer texto e autor. Entendo que o bom escritor tem uma visão de mundo privilegiada, tem mais compreensão dos problemas da humanidade, e reúne em sua obra seus melhores conceitos e ideias, capazes de ir ao encontro das necessidades mais profundas de seus leitores.


Quando lemos, não há como não pensar no preparo que antecede a elaboração de um livro: planejamento, cenário, personagens, momento histórico, conceitos subjacentes, ideologias, conceitos filosóficos, etc, etc… Vale conhecer um romance histórico, lindo, ambientado na Idade Média, século XIV, escrito por Umberto Eco, autor italiano, que se denomina “O Nome da Rosa”. Discorre sobre assassinatos que ocorrem em um mosteiro. Obra premiadíssima, best seller, tornou-se filme. Após o incrível sucesso, o autor publicou outro livro chamado “Post Scriptum a O Nome da Rosa” no qual expõe todos os cuidados, ações e diretrizes que antecederam à publicação do romance. Um trabalho minucioso, merece nosso respeito.


Considero a leitura de bons textos como alimento para nossa alma. Ler nos melhora em todos os aspectos: vocabulário, ideias, entendimento, cultura, novos horizontes; nos tornamos seres humanos melhores. Às vezes nos vemos retratados, vida e sentimentos, naquilo que lemos. Quanto mais nos identificamos com a obra lida, quanto mais a história encontra eco e ressonância em nossa alma, mais gostamos da leitura. Vale lembrar que Literatura é a arte da palavra, usar a palavra de forma singular, única e carregada de significados. Sendo arte, a Literatura tem como instrumento de comunicação, a palavra, elaborada artisticamente. O talento para escrever, para escolher o vocabulário adequado, para aproximar palavras e sons, faz com que a leitura emocione, encante, fascine, envolva o leitor, fazendo-o rever seus conceitos, suas atitudes, sua ética.


O uso artístico da palavra, por excelência, pode ser visto em “A Hora da Estrela” de Clarice Lispector, quando a personagem Macabea, ao ver o rapaz que se tornaria seu namorado, exclamou: “Você é a minha goiabada com queijo”. Esse “elogio” pode nos causar estranhamento, mas nessa frase estão contidos muitos significados: goiabada é doce e áspera, queijo é salgado e macio (os opostos se atraem), formam uma sobremesa que todos gostam (a preferida de Macabea) e que é chamada “Romeu e Julieta” (a maior história de amor de todos os tempos). Palavras simples mas que carregam significados muito bonitos.


E o que dizer de Sílvio Caldas, quando compôs “Chão de estrelas” e disse “e a lua furando nosso zinco, salpicava de estrelas nosso chão”, que transforma um fato desagradável em pura poesia, capaz de despertar a paixão do casal exposto a essa situação de penúria.


E Machado de Assis, em “Dom Casmurro” conta uma história banal de suposta traição e o faz de maneira tão especial, uma narrativa tão genial, que transforma esse livro em um dos mais famosos clássicos da Literatura mundial.


Isso é usar a palavra artisticamente, isso é Literatura, isso é poesia. Mas, é preciso entender! E, então, desfrutar!


“O melhor lugar do mundo é dentro de um abraço”. (Jota Quest)


(*) Aldora Maia Veríssimo – Presidente da AVL

Comments


bottom of page