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O espelho amigo


Levanto-me pela manhã e, no banheiro, me vejo no espelho. Considero que meu espelho é meu amigo sincero, me analisa e me mostra sempre como estou... Acompanhando nossa vida desde a mais tenra idade o espelho mostrou, na meninice, o esboço do que seríamos: redemoinho no cabelo, covinha no queixo, pinta na face lateral do rosto, dentes incisivos separados e o olhos que sempre informam se estamos tristes ou alegres, espertos ou sonolentos. Na juventude nos refletiu os cabelos “a la Beatles”, a barba por fazer e um arremedo de bigode que, para nós, dava a impressão de força e poder; nesta época ao olharmos no espelho tínhamos a impressão de que faltava alguma coisa para que nossa imagem mostrasse exatamente o que éramos. E por mais que fizéssemos nada parecia resolver os nossos problemas de imagem: cabelo rebelde e desgrenhado, barba rala e bigode que era mais um buço e as terríveis acnes que marcavam nossa pele de forma incontornável. Adultos jovens começamos a nos achar mais bonitos e, quando surgia uma paquera, um flerte como se dizia, sempre imaginávamos que estávamos muito semelhantes aos astros da época. Mesmo que em determinado dia aparecesse em nossa imagem olheiras e outros sinais sempre sabíamos que tais marcas desapareceriam com pequenos cuidados. Após o casamento os dias de luta e de trabalho nos afastaram um pouco do espelho, afinal, mais importante do que a imagem era a ocupação de nosso espaço na sociedade, nossas conquistas, nossas vitórias. Às vezes o nosso reflexo nele nos informava que estávamos envelhecendo através do aparecimento de rugas, bolsas de gordura sob os olhos, cãs grisalhas, alteração branda da comissura labial e visualização concreta do cansaço mas isto, para nos, passava desapercebido já que mais importante era o carro zero, a roupa nova, a compra do passeio para o nordeste.


A velhice chegou e, com ela, foi-se embora a postura narcisista. Hoje ao olhar o espelho amigo temos a exata dimensão de como estamos e, por certo, claramente sentimos que o tempo passou e foi inexorável com nossa imagem. Rugas, cabelos brancos, calva acentuada, cataratas nos olhos, musculatura facial flácida, tudo mostra, sem subterfúgios, que nossa imagem reflete nossa senectude. Mas, ao contrário do que ocorria antes, quando nos revoltávamos quando nossa aparência não condizia com nossas expectativas, agora nossa imagem no espelho nos revela que vencemos uma jornada que teve momentos bons e difíceis, alegres e tristes e, mais do que nunca, somos vencedores. Aprendemos com a existência que a beleza interior é que faz verdadeiramente nossa imagem e que seremos muito mais lembrados por nossos atos do que por nossas aparências. Mais do que isto, aprendemos no transcorrer da vida que é preciso saber viver e, então, a dependência da nossa imagem no espelho perde significativamente sua importância e passa a valer muito mais a imagem que guardamos em nosso coração. E o nosso espelho amigo que sempre foi extremamente sincero naquilo que nos mostrava continua igual refletindo todos os dias pela manhã quando nos acercamos dele exatamente o que somos.


(*) O autor é médico e membro da Academia Venceslauense de Letras

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