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O fim melancólico


Acabo de ler um livro que me impactou muito. Na verdade mexeu com as profundezas de meus sentimentos, com minha sensibilidade, com meu amor filial e, por certo, marcou bastante minha vida. Trata-se do livro indicado para o clube da leitura pela nossa querida presidente da Academia Venceslauense de Letras, Aldora Maia Veríssimo, que se chama ‘Para Sempre Alice”, de autoria de Lisa Genova. Que livro!!! A abordagem que faz de uma das doenças degenerativas mais tristes que conheço, a “Doença de Alzheimer, é tão profunda e, eu diria, tão avassaladora que ao terminar sua leitura você vai se sentir outra pessoa. Pelo menos comigo isto aconteceu. O livro conta, da perspectiva da personagem Alice, como a patologia foi se instalando a pouco e pouco no seu cérebro transformando inexoravelmente sua existência e sua relação com seus entes queridos como os filhos e o próprio esposo. Ela, uma professora de Harvard, inteligente, extremamente ativa, psicóloga famosa, começa ainda jovem, aos 53 anos, a ter lapsos de memória, a se perder em locais extremamente conhecidos, a ter algum tipo de alucinação e delírio, a esquecer objetos, os nomes das pessoas, as horas do dia e até as mínimas condições de higiene. Não consegue mais se vestir direito e aos poucos vai ficando esquecida nos desvãos da vida de seus familiares. O episódio de sua entrada numa casa vizinha acreditando ser a sua, a busca incessante de um objeto que ela nem sequer sabia especificar, a sua agressividade, são sinais inequívocos da doença degenerativa neurológica cerebral que vão transformar a pessoa em um ser completamente alienado da vida, um verdadeiro “vegetal”. E quem teve uma pessoa extremamente amada como, por exemplo, a própria mãe, com o problema, sabe exatamente do que estou falando. Eu tive.


A doença de Alzheimer ainda tem sua etiologia pouco conhecida. Sabe-se que tem componente genético e, assim, várias pessoas da mesma família podem apresentar a enfermidade. Há também uma certa relação com a diabete porque pesquisas médicas informam que há número maior de doentes entre os diabéticos. O fato é que num determinado momento da vida começa a haver um depósito de uma proteína denominada beta amiloide em placas no cérebro impedindo o funcionamento dos neurônios, destruindo as sinapses e causando uma atrofia cerebral que fatalmente levará a pessoa ao óbito. Doença crônica se arrasta por muitos e muitos anos e assim o paciente, aos poucos, se transforma em uma pessoa que já não vive: não conhece ninguém, perde as noções de higiene, altera muito os hábitos, não dorme de maneira normal, se torna, aos poucos, agressiva, as vezes até consigo própria, não se alimenta direito e em consequência, emagrece e perde suas resistências. O Fim chega sempre de maneira melancólica...


Não há tratamento para a cura embora já existam alguns que agem retardando a patologia de tal forma que o paciente pode viver melhor por mais tempo. Algumas atividades de estímulo ao cérebro também ajudam muito a retardar a doença como, por exemplo, a leitura, o jogo de xadrez, as palavras cruzadas, a vida social, atividade física, ouvir e cantar músicas, assistir filmes e, evidentemente, estar atento a lapsos de memória buscando uma assistência com o neurologista.


O mundo moderno aumentou muito a expectativa de nossas vidas e, assim, temos muito mais idosos juntos de nós. Nossos entes queridos precisam deste carinho e atenção, precisam da convivência conosco, necessitam ser valorizados e se sentirem uteis e se alguns, acreditamos que logo serão muito mais dos que já estão aí, apresentarem a terrível doença, necessitam de nosso respeito mais profundo e total e nosso amor eterno!


Leiam o livro. Vale muito a pena!


(*) O autor é médico e membro da Academia Venceslauense de Letras

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