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O peso do pássaro morto

Atualizado: 20 de jun. de 2023



Aline Bei, autora de “O peso do pássaro morto” nasceu em São Paulo em 1987. É bastante jovem. Formada em Letras pela PUC de São Paulo, publicou seu livro de estreia em 2017, recebendo o Prêmio São Paulo de Literatura já em 2018, na categoria “Melhor romance de Autor Estreante com menos de 40 anos”. O título, instigante, remete a um fato verídico: um pássaro, inadvertidamente, apertado na mão, pela protagonista, e que morre.


Nessa obra, é contada a vida de uma mulher, dos 8 aos 52 anos, desde as singelezas cotidianas até as tragédias que se sucedem uma após outra deixando o leitor tenso à espera do próximo momento trágico.


Um livro, ao mesmo tempo  denso e leve, violento e poético. A protagonista tenta com todas as forças não pautar sua vida pela dor, embora essa seja a tônica.


É um romance curto com cerca de 170 páginas, que mescla prosa e poesia, com uma diagramação de texto que lembra a linguagem das redes sociais, mais especificamente, do whatsapp, frases cortadas, sem o uso da página completa, pouquíssimas palavras com letra maiúscula e desvalorização da pontuação conservadora.


É uma leitura muito simples, delicada e ingênua mas capaz de nos tirar o fôlego, nos incomodar ou nos irritar e que nos faz refletir sobre a própria vida em diversos momentos da narrativa. Como um diário, a protagonista relata as diversas perdas sofridas ao longo de sua vida da infância à maturidade, utilizando, não raramente, metáforas muito bem elaboradas.


A autora evidencia a máxima “a cura não existe”; são incuráveis as dores da dor, as dores da perda e as dores do vazio existencial. Na trajetória relatada, dos 8 aos 52 anos, a oralidade é a tônica, linguajar que vai se tornando mais amadurecido com o passar do tempo, mas sempre deixando transparecer a garota de 8 anos, impotente diante das vicissitudes da vida, para as quais sente-se tolhida e incapaz de reagir.


A impressão que fica para o leitor é passividade, indiferença ou impotência em mudar os rumos da própria vida. Mas, conforme os anos passam, as dores e perdas se agigantam: a morte da melhor amiga do Colégio, o estupro pelo próprio namorado, a gravidez indesejada pontuada pela tentação de abortar, a depressão pós – parto, resultaram em uma maternidade mal resolvida, reflexo das dificuldades que tivera com sua mãe; falta de proximidade e afeto com o próprio filho, dificuldades no amor e na socialização. Um final trágico faz jus a sua vida. Fica claro ao leitor que a autora valoriza as dores da infância e juventude cujo ônus será cobrado na maturidade.


A maternidade, nos parece, uma tentativa de aproximá-la dos sentimentos que ela nutre pelo filho, outro sentimento aprisionado pela dor.E o filho, sentindo esse distanciamento também se fecha e se afasta. O resultado disso é uma relação mãe e filho, sem vínculos, que se prolonga como uma culpa permanente e que não dá espaço para a construção do afeto.


O curto período de tempo em que suas dores pareciam ter se sublimado com a presença do Vento, seu então cachorro, tem um fim também trágico: o cachorro foi atropelado e morrendo levou consigo o que restara daquela vida tão triste.


Desiste de viver. Não come, não sai de casa, não vê razão para continuar vivendo. Morre sozinha, sendo descoberta, apenas, quando a matéria já entrara em decomposição.


Uma história bonita, pesada, envolvente e ao mesmo tempo simples e delicada. O que certamente não acontecerá  é ficarmos indiferentes após conhecê-la.“Quantas perdas cabem na vida de uma mulher?”. (Micheliny  Verunschk)


(*) Aldora Maia Veríssimo – Presidente da AVL

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