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O que é viver


Após quarenta dias em coma e entubado José acordou. A luz forte do quarto hospitalar o cegou instantaneamente e, aos poucos, recobrou a visão entre fagulhas e rabiscos que lembravam lantejoulas. Não tinha noção de quanto tempo ficara “fora do ar” e, incrível, as pessoas que o cercavam eram estranhas. José não atinava com aquelas mascaras que usavam e as palmas que batiam reverberava em sua cabeça.


Aliás, intensa cefaleia é o que o estava incomodando naquele momento... Quando o cidadão de branco lhe informou que passara muito próximo da morte e que sua recuperação fora um milagre não acreditou e quando lhe falaram sobre os dias em que ficara em coma considerou que estavam mentindo.


José vagamente se lembra de que começou com uma coriza e tosse seca alguns dias após uma grande festa que participou. Viver para ele até então tinha sido uma grande algazarra! Com ótima condição financeira, protegido pelo pai, grande industrial, José tinha tudo o que queria e imaginava: carro do ano, viagem à Europa e muitas festas!


Quando começou a se falar na pandemia José achou que aquilo era uma grande bobagem e que tudo era invenção da mídia para valorizar atividade e apavorar as pessoas. Mesmo com diabete José não se precaveu: não usava máscara e não tomava nem cuidado com a lavagem asséptica das mãos. Afinal a vida é para ser vivida dizia! E não seria uma virose que iria impedir o seu viver...

Viver é algo extraordinário e, dependendo de cada pessoa, viver pode ser uma benção ou uma catástrofe. José optou pela segunda via.


Agora trêmulo, andando com extrema dificuldade, com escaras dolorosas o homem sofre com a fisioterapia que busca a sua recuperação e, aos poucos, recomeça a viver, todavia de forma diferente... Abre as janelas do quarto e vê flores no jardim, pássaros cantando nas árvores e crianças brincando no parque.Então com olhos em lágrimas agradece a Deus a ventura de ter sobrevivido e sabe que nada será como antes! A vida é um instante, mas saber vivê-la é uma benção eterna.


Observação: A pandemia ainda grassa entre nós. Ainda morrem cerca de 200 pessoas por dia. Que este texto sirva de alerta para aqueles que não se cuidam e correm risco além de arriscar a vida de outras pessoas.


(*) O autor é médico e membro da Academia Venceslauense de Letras

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