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O tempo e nós

Atualizado: 20 de jun. de 2023



Há quem não goste que o “tempo passe, que o tempo passe, que o tempo passe”. O tempo deixa em todos nós suas marcas. Sou tranquila quanto ao despetalar das folhas do calendário. Gosto de arrancá-las e jogá-las ao vento. Normalmente não dou nenhuma importância ao passar dos anos. Parecem não passar. Mas, há outros momentos em que sinto o tempo e agradeço pelo tiquetaquear do relógio e pela inexorabilidade da passagem das horas.


Acredito que o tempo só nos faz bem; só ele nos dá sabedoria e discernimento que na juventude não alcançamos; só ele nos faz entender coisas que não vislumbrávamos antes; só o tempo nos dá segurança de posicionamentos e capacidade de descartar o que não nos interessa, seja estar, opinar ou nos envolvermos em qualquer situação.


Só o tempo nos dá calmaria, tranquilidade, sutileza de gestos, um olhar de compreensão, muita clareza das relações de causa e consequência, uma complacência a toda prova, um “não vale a pena”  incontestável ou um f#da-se bem contextualizado! Considero meu trabalho como professora um dos melhores aspectos da minha vida. Sempre disse que meus alunos (agora ex-alunos) têm um espaço privilegiado nos meus sentimentos.


Fico feliz quando os encontros no dia a dia, quando sei que foram aprovados em concursos ou vestibulares, quando assumem cargos com forte significado social, quando se sobressaem em seu grupo. Sempre me reporto aos tempos de sala de aula e tento relacionar se esta ou aquela habilidade já se fazia anunciar na adolescência.



Às vezes sou “encontrada” pelo facebook ou instagran. Ex- alunos dos meus tempos de docente em escolas rurais de emergência ainda se lembram de mim. Há um ex-aluno, morador de Roraima, cujo filho entra em contato comigo, com certa regularidade, via redes sociais. Só quem já passou por isso, consegue me entender.


Mas, como dizia minha mãe, nada é tão bom que não possa melhorar. Dia desses, no meu papel de senhorinha aposentada, estava, num final de tarde cuidando de minhas plantinhas da calçada, quando fui surpreendida por uma moto que passando pela frente de minha casa, repentinamente volta fazendo uma frenagem rápida ao meu lado. O motociclista ergue o capacete, me cumprimenta e me pergunta: A senhora se lembra de mim, professora?


Dissera a palavra mágica: professora. Acionei meus neurônios responsáveis pela memória e lembrei-me de meu ex-aluno e de seu nome. Ex-aluno do meu tempo de professora no antigo GE, hoje Escola Shiruca. Casado, pai, profissional, já um homem encorpado que deixou para trás aquele adolescente franzino e tímido, enfim, um cidadão de bem.


Conversamos um pouco e ouvi dele palavras carinhosas, respeitosas, que me fizeram perceber que, realmente, é uma pessoa de qualidades admiráveis: educado, gentil, centrado, falante, desinibido, honesto, trabalhador e de caráter. Prometeu-me que sempre que passar pela minha rua, se eu estiver cuidando das flores, vai parar para conversarmos, quem sabe relembrar os tempos da escola.


A noite se avizinhava. Entrei, relatei a meu marido o que ocorrera e pude contar, mais uma vez, com seu apoio e entendimento. Ele sabe muito bem o que significou, na minha vida, ser professora e principalmente no GE.


O tempo, ah, o tempo continuou esvaindo-se na ampulheta do meu dia. Ao olhar-me no espelho, no momento que antecede o banho, percebi, não as minhas rugas naturais da idade, mas, claramente, um olhar mais doce e um sorriso, aparentemente, sem causa. Caramba, como foi bom rever meu ex-aluno!


“Ninguém irá reparar nas rugas enquanto houver brilho nos olhos.” (Autor anônimo)


(*) Aldora Maia Veríssimo – Presidente da AVL

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