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Os netos


Vamos envelhecendo como é normal na vida e, evidentemente, as recordações do passado, boas e más, afloram e passam a fazer parte importante de nosso dia a dia. Lembramos dos folguedos da infância e adolescência e, entre as principais recordações, enchendo nossos corações de saudades, lembramos da casa de nossos avós. Ah! A casa dos avós! Ali tudo era bom e divertido. Tudo era permitido! Brincávamos pela casa toda e, no final do dia, a bagunça que deixávamos por todos os cantos demonstrava bem a algazarra que fazíamos. Os avós sempre carinhosos a tudo permitiam e, se vovó por algum motivo ficava zangada, corrigia mais tarde sua braveza com um belo pedaço de torta de banana que era supimpa! Crescemos e a luta pela vida nos foi afastando do convívio dos avós. A batalha para conquistar nosso espaço, o nosso trabalho, o casamento e os filhos fizeram com que quase esquecêssemos daquele tempo da infância.


Agora pensávamos em outras coisas. Queríamos ganhar muito dinheiro, comprar um belo apartamento, conhecer o mundo, conquistar fortuna e educar nossos filhos de acordo com o que achávamos correto. Nesta época nossos pais, que viraram avós de nossos filhos, foram por nós criticados pelo que faziam aos netos. Dizíamos: “estão estragando as crianças”, “mamãe não sirva torta para os pequenos”, “se vocês continuarem assim não vamos mais traze-los aqui”. E os nossos pais, com a sabedoria que o tempo e a vida proporciona, se mantinham calmos e calados conscientes de que só os avós podem viver o momento extraordinário da convivência com os netos.


Chegamos à senectude e, embora continuemos no trabalho e na luta diária, mudamos nossos conceitos e expectativas. Já não pensamos mais em fazer fortuna, não queremos mais competir com outras pessoas, compreendemos que temos mais falhas que acertos e, no ocaso da vida, concretamente percebemos que o mais importante é viver! Daqui só vamos levar a lembrança do que fizemos de bom e deixar como herança os exemplos de dignidade e trabalho que preencheram nossa existência. Os bens materiais que por ventura ficaram serão absorvidos pelos herdeiros e logo cairão no limbo do esquecimento por eles vivido.


Mas temos os netos nesta fase de nossas vidas! E isto vale muito a pena! Os netos são realmente o sangue de nosso sangue. Reconhecemos neles pedacinhos de nós, no olhar, no nariz, no temperamento... Aparecem em nossas vidas um belo dia pelas mãos de Deus, através dos filhos, e, longe de ser um estranho, é um filho que nos é devolvido e podemos amá-lo com toda a extravagância e permitir que faça tudo ao nosso redor. Com certeza a vida nos dá os netos para compensar todas as lutas e, principalmente, as perdas que tivemos ao chegar à velhice. Um amor tão profundo e verdadeiro, uma sensação de felicidade tão imensa que preenchem todo o vazio que possa existir em nosso coração. E quando vamos embalar aquele bebê e ele já adormecendo olha nosso rosto e diz: “Vovô ou Vovó” lágrimas da mais pura alegria brota de nossos olhos, de nosso ser!


Os netos são a continuidade de nossas vidas e por eles vale muito a pena viver!


(*) O autor é médico e membro da Academia Venceslauense de Letras

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