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Patriotismo


Fui visita-lo neste sábado pela manhã. Estava sentado na varanda observando a rua que ali, na periferia, era calma e, naquele momento, silenciosa. Sempre o encontrei ali, no mesmo lugar, principalmente após ter se aposentado da prefeitura. Aos 90 anos o velho companheiro Camilo tinha dificuldades visuais, quase não enxergava, mas reconhecia minha voz e ficava feliz com minha visita.


“Como vai Tacinho? Como está a saúde?’ perguntou-me sempre com o largo sorriso que era sua característica. Disse-lhe que estava bem e que passara por ali para um dedo de prosa. Na verdade queria ouvir do velho amigo sua opinião sobre as eleições do domingo e sobre o momento que o País está vivendo. Camilo é praticamente semi analfabeto mas me acostumei através destes últimos quarenta anos a ouvir suas opiniões sobre acontecimentos citadinos e a “pensar’ com ele o momento vivido. Foi assim desde a primeira vez em que, jovem ainda, me candidatei à prefeitura de minha cidade. Sempre com muita visão de tudo ele me passou ensinamentos e posições que foram fundamentais para meu trabalho, para meu dia a dia, para minha vida... A sabedoria para a vida não está exposta apenas nos livros e nas universidades mas, também, viceja nas experiências que o dia a dia nos apresenta e que, muitas vezes, passam desapercebidas pelo nosso orgulho e pela sensação de que sabemos mais que o próximo. Ledo engano! Podemos sim saber tudo sobre nossa profissão, sobre a economia, sobre a literatura, o comercio e as conquistas; podemos falar outras línguas, conhecer outros lugares e ocupar outros espaços. Podemos, sim, sermos vencedores em nossas disputas e tirar os lugares de outros mas podemos também, com nossas atitudes, nos colocarmos na solidão que nos transforma em seres quase que abjetos. O velho Camilo me ensinou a humildade! De forma simples, na conversa corriqueira, me mostrou infinitas vezes que não somos mais que ninguém, que precisamos de todos, que a soberba talvez seja um dos maiores pecados e que assim como chegamos sem nada nesta vida ao partirmos também nada vamos levar, absolutamente nada, deixando apenas como nosso principal legado os exemplos de trabalho, de dedicação, de caridade e de amor ao próximo. Evangélico, pai de 8 filhos, mais uma vez neste sábado, mostrou-me que a religião e a fé em Deus é algo fundamental, mostrou a mim que a família é uma dádiva do céu e deve sempre ser preservada com dedicação, coragem e sacrifícios, os pais amando seus filhos e os filhos verdadeiramente adorando e respeitando seus progenitores. Mostrou-me que vivemos em uma terra abençoada onde temos fartura de água e terra, onde podemos, pelo trabalho, plantar e colher nosso alimento e pelo respeito e fraternidade conquistarmos o nosso lugar. Enfim, nesta manhã de sábado, o amigo Camilo, com palavras simples e profundas me mostrou que família e pátria são importantíssimas e que Deus, acima de tudo, é essencial.


Dejanira, sua filha caçula, me trouxe o cafezinho doce e perfumado no copo americano e, observando o velho amigo, mais uma vez senti admiração por aquele trabalhador humilde e dedicado que criou todos os seus filhos com o suor de seu trabalho e que vê a vida com os olhos do amor, da humildade, da fé em Deus e com o patriotismo que deve estar, mais do que nunca, presente em nosso coração.


(*) O autor é médico e membro da Academia Venceslauense de Letras

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