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Pequenas histórias sobre mães


Lembro-me como se fosse hoje! Era também um dia das mães. Saíamos do plantão na maternidade aonde de madrugada havíamos assistido um parto de uma menina de treze anos que após tantas horas de sofrimento ao nascer seu pequenino bebê, como se nada e nenhuma dor tivesse acontecido, apertou-o junto ao seio e sua expressão de amor era tão intensa que nos fez chorar de alegria. Sim, o plantão terminara mas ainda nos deparamos com outra surpresa: uma paciente que ganhara neném há poucos dias se evadira do hospital e deixara um bilhete dizendo que não poderia criar seu filho pois era usuária de drogas e não queria que sua criança trilhasse o mesmo caminho. Acionamos o juizado de menores pois, na época, não havia Conselho Tutelar, para encaminhar aquele recém-nascido revoltados com a atitude daquela mãe que abandonara seu filho. Assim, durante todos estes anos em que exerço a medicina tenho visto as manifestações de amor imensurável das mães a seus filhos e hoje, com os cabelos embranquecidos, até compreendo o gesto daquela “drogadita” que preferiu abandonar seu filho para não vê-lo seguir o seu trajeto.


Na porta das cadeias vejo mães aguardando a oportunidade de ver o filho preso e, para ela, por pior que ele seja, será sempre seu menino e, mesmo as abandonadas por sua família e esquecidas em um abrigo de idosos, quando falam de suas crianças demonstram carinho e grande amor por elas. Sendo repetitivo eu diria que amor de mãe por seus rebentos é eterno.


Eu era criança e nas férias ia para Minas passar a temporada no sítio de minha avó. Era uma alegria! Andar a cavalo, tomar o leite tirado na hora de manhãzinha no curral, visitar o vizinho da frente “seu Pompeu” em cujo quintal, nos fundos, passava o rio Aventureiro e onde podíamos pescar os lambaris, as traíras e os bagres era tudo o que queríamos. Dona Sinhá, esposa do seu Pompeu e mãe de nosso amiguinho Jader, nos servia doce de goiaba, de abobora, de marmelo com queijo fresco e isto era bom demais. Naquelas férias encontramos ali uma novidade: Manah a cadela de estimação do Jader havia parido quatro filhotinhos e, aos sete anos, para nós era verdadeiro espetáculo. Mansinha ela permitia nossa aproximação do ninho que estava situado em uma caixa de madeira ao lado do curral bem próximo do Aventureiro. Passávamos horas ali vendo a cadela lidar com os filhotinhos que, gulosos, queriam só mamar. Aconchegava as crias e as lambia com muito carinho protegendo-as de tudo. Naquela noite o tempo mudou para os lados de Cataguases e de madrugada os trovões se aproximavam do sítio. Seu Pompeu acordou com os ganidos de Manah que arranhava a porta dos fundos junto à cozinha. Como isto nunca ocorrera antes o velho, ainda sonolento, abriu a porta que dava para o alpendre e encontrou a cachorra desesperada que latia para ele e corria em direção ao ninho onde estavam os cãezinhos. Voltou para o interior da casa para pegar um lampião e quando saiu com a luz na mão encontrou Manah com um filhote na boca depositando-o na varanda e voltando em disparada para o curral. Olhou para o lado do rio e viu que o mesmo subia de nível rapidamente. Então entendeu o “grito de socorro” daquela mãe. Correu a ajuda-la e quando puseram o ultimo filhote a salvo a correnteza passou arrastando tudo inclusive o caixote onde pouco antes estavam os animaisinhos. Manah aconchegava seus rebentos mas, de repente, se aproximou do homem e lhe lambeu as mãos num verdadeiro gesto de gratidão.


A vida nos ensinou muitas coisas, boas e ruins, mas nos mostrou sempre, independente de tudo, que o amor de uma mãe, seja ela quem for, é infinito, abençoado, divino e para sempre!


(*) O autor é médico e membro da Academia Venceslauense de Letras.

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