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Pequenos prazeres da vida


Engraçado como às vezes não damos nenhum valor às pequenas coisas que, quase desapercebidas, nos dão grande prazer e, por conseguinte, ânimo para enfrentar as batalhas do dia a dia. Quando jovens, muito mais interessados em nossas lutas e conquistas, não conseguimos entender e assimilar os pequenos prazeres e, se nem sequer os percebemos, fica muito difícil valoriza-los. Óbvio que uma grande vitória, como, por exemplo, a formatura na faculdade, a aquisição do primeiro carro, o casamento, o nascimento dos filhos, nos dão enorme satisfação e ficam marcados para sempre em nossas memórias, em nossas existências, mas o acordar vivo pela manhã, a beleza de uma flor, o aceno do amigo pouco significado têm para o nosso perturbado cotidiano. O tempo voa, rápido como o pensamento, e, então, só vamos acordar para os pequenos prazeres no outono de nossas vidas...


A verdade é que as pessoas não são as mesmas durante toda a vida, não somos terminados e assim mudamos muito durante nossa existência e, com o tempo, com as experiências e vicissitudes do viver, começamos a valorizar o que antes era desprezado. E isto, seguramente, acontece com todo mundo!


Então comigo também ocorreu. Agora septuagenário, muito mais próximo de Deus, consciente de minha finitude e de minha pequenez, compreendi que os grandes valores da vida estão concentrados nas pequenas coisas, nos pequenos gestos...Muito bom acordar pela manhã se sentindo bem, com disposição para enfrentar um novo dia de trabalho que, por certo, será árido, abrir a janela , ver o sol nascendo e sentir a brisa tocando meu rosto num carinho suave; prazeroso demais tomar um banho quente e, após, um café cheiroso comendo um pão com manteiga ouvindo as primeiras notícias do dia. Inigualável subir para o hospital e ver primaveras floridas na praça e em alguns quintais! Maravilhoso passar pelos corredores do serviço e ser saudado com carinho pelos companheiros de trabalho. Indescritível perceber o choro emotivo dos pais ao segurarem no colo o filho recém-nascido e emocionante ter um abraço apertado e o obrigado sincero daquele pai. Depois, durante o dia, bom demais poder discutir um caso clínico com o colega ou ensinar “aprendendo” com os universitários. Finalmente a noite, após o dia de labor, poder sentar, com a consciência tranquila do dever cumprido, abrir um livro interessante, saborear um cálice de vinho suave e, após, fazer as orações agradecendo ao Pai por mais um dia de vida plena. Pequenos prazeres que ela nos dá!


Se, de alguma forma, pudermos valorizar estes pequenos prazeres, por certo o fardo de nossa jornada não será tão pesado e, acredito, deixaremos saudades no coração daqueles com os quais convivemos. Como diz Guimarães Rosa em seu majestoso livro “Grande Sertão Veredas”: “Viver é perigoso”. De fato muito perigoso. Mas temos o poder de atuar em nossa vida e transforma-la numa jornada de grande felicidade exercendo a humildade, estimulando o amor e, sempre, com gratidão, vivendo e valorizando os pequenos prazeres que são dádivas essenciais!


(*) O autor é médico e membro da Academia Venceslauense de Letras

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